
Quando morei na Inglaterra, anos atrás, assisti pela TV o homem chegando à Lua. Estava na escola, e minha cabeça de criança entrou em órbita com aqueles astronautas. Visitando aquele menino distante mais de quatro décadas, percebi que ele ainda pensa nas coisas do espaço.
A Apollo 11 alcançou a baixa órbita terrestre 12 minutos depois da ignição dos motores, já tendo deixado dois dos três estágios do foguete para o oceano Atlântico. O terceiro estágio só foi liberado depois de dar o último impulso aos exploradores, aumentando ainda mais a velocidade da nave Apollo, rumo à Lua. Para tirar o homem da força gravitacional foram necessárias toneladas de combustível. Em 20 de julho de 1969 o comandante Neil Armstrong tocava o solo lunar e declamava: “Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade.”
Hoje o homem, tendo deixado muitas coisas de menino para trás, vai ressignificando eventos e experiências do passado, dando a eles novos contornos. Considerando que todos saímos do nível do mar e que o espaço é nosso destino, fiquei matutando o quanto de energia é preciso para sair do ‘chão existencial’ para tocar as estrelas, rumo ao infinito! Neste sentido, cada um deve definir quais são as suas resistências, ou quais forças podem estar impedindo o vôo. Compreendi que três grandes estágios devem ser superados para quem deseja sair do chão.
O primeiro é ter coragem para enfrentar a grande pergunta: quem sou eu? Esta é a questão de identidade. Define a compreensão de ser diante dos outros seres vivos. Luta-se para sair da mediocridade. Esta pergunta é a pergunta original, a raiz de todas as outras perguntas. Quem não se preocupa com ela não vive e nem voa – apenas passa pela vida, cacarejando, andando para trás e ciscando migalhas. As perguntas certas levam ao fundo do ser, e trazem determinadas angústias. Alguns, não as suportando, tentam roubar a vida de outros, fingindo ser o que não são. Vivendo com medo, tornam-se agressivas. Focam no ter, escondem-se atrás de objetos e consideram os demais apenas conforme sua utilidade. Mas quem se esforça avança para outro nível.
O segundo estágio é a grande resposta, o encontro que dá senso de identidade, auto-estima e força. Voando como águias a vida adquire uma nova dimensão. A altura determina novos horizontes, novas perspectivas, novos aprendizados. As resistências interiores diminuem e o aprendizado traz a humildade. O ter é superado pelo ser. Finalmente, o encontro com o “Eu Sou” traz a libertação que leva ao limite da rendição de nós mesmos diante do incompreensível. Entramos em harmonia, sustentados pelo ar e pela velocidade. ‘Quem sou’ se equilibra com “de quem sou”. Mas certa inquietação ainda avisa que não é o último estágio, existem coisas maiores e melhores mais acima. Novas perguntas. Qual é o propósito de todas as coisas? Para que existimos?
O terceiro estágio, o último impulso, para aqueles que agora voam mais alto ainda, permite a libertação e o encontro com o propósito maior da vida, o serviço, o exercício da vocação para a qual fomos chamados. A finalidade, a missão, a grande comissão: chamados, comissionados e enviados para servir a humanidade, segundo os propósitos de Deus! Nada mais aprisiona, as grandes resistências foram vencidas, as forças terrenas finalmente superadas. As limitações são reconhecidas sem angústias. Amar é o grande desafio. A missão é o cumprimento do amor, o exercício da vocação.
A vida flui naturalmente para quem atingiu o terceiro estágio, assim como o foguete, liberto de todas as forças que tentavam segurá-lo, vai ao encontro de seu destino sem esforços. Libertos das forças que puxam para baixo, dos “desejos existenciais terrenos", prosseguimos para o alvo. Neste momento, navega-se em paz, com simplicidade, alta velocidade, com propósito. O passado, o presente e o futuro se tocam em um único ponto: hoje!
