
Cansei de receber correntes-denúncia a favor ou contra todo tipo de situação.
A satanização de candidatos, ou a polarização de opiniões, demonstram apenas que as pessoas gostam de adjetivos fortes e verbos fracos. Nada contra o direito de se posicionar – mas me preocupa o movimento e a indignação apenas em tempos de eleições. No mais, a alienação de sempre.
Vejam bem apenas dois temas, para resumir.
Um é o palhaço Tiririca. Gosto dele, a criançada ri à revelia com o que ele faz. Pobre de origem, semi-analfabeto, desde cedo descobriram que ele dava certa popularidade, passando a ser explorado para faturarem em cima de suas ingênuas palhaçadas. E ele também aproveitou para ganhar seu troco fazendo as pessoas rirem de si mesmas. E daí? O maior preconceito no Brasil é contra o trabalho: todo mundo sonha em ganhar sozinho na Sena, mas ninguém sonha em ganhar a vida trabalhando honestamente. Mesmo como palhaço.
Um dia descobriram que o palhaço Tiririca poderia render votos. Ele, coerente, não se intimidou: se é pra fazer rir, ‘vamo lá’! A piada-pronta elegeu-se e o recado foi dado: lugar de palhaço também é no picadeiro da nação! Dos tempos de criança, a gostosa lembrança dos circos. Alguém aí se lembra do Orlando Orfei? Na década de setenta era a sensação! Lembro da emoção dos palhaços, que faziam a gente rir, fazendo graça das coisas que normalmente nos fazem chorar. Como o Tiririca!
Depois de alguns momentos tensos, entram os palhaços no picadeiro. Hora da sessão solene, lá vem eles! Afinal, a Câmara e o Senado são ou não nossos grandes picadeiros? Quem desejar terá a oportunidade de gargalhar nos próximos anos: ligar a TV-Câmara & Senado e assistir ao Tiririca e sua troupe em ação! Tomara que ele não se leve muito a sério...
Atenção, meninada, está chegando, o afamado palhaço ‘Tiririca’ (...) E por isso meninada, quero ver muita alegria!! Salve, salve a criançada e o palhaço Ventania! Tá na hora, tá na hora, bota o palhaço pra fora! Em outras palavras, solta o palhaço no picadeiro, quero mais é dar risada!! Deseja matar a saudade? Clica aí, não é vírus, mas a música você vai lembrar e gostar, recorta e cola no seu navegador: http://thiagobaby.podomatic.com/entry/2007-05-30T19_46_28-07_00
Porém, no meio de tanta palhaçada, tem certas coisas que exigem verbos, como o ‘agir’. Chega uma hora, o espetáculo acaba, assim como a pipoca. As luzes acendem, hora de sair do circo e cair na realidade, que é cruel. Mais cruel que os leões do circo romano, que cumpriam seu papel servindo-se no buffet de cristãos. Depois, enquanto os felinos palitavam os dentes, entravam os palhaços para distrair o público dos horrores recém presenciados.
Pronto, passou, como dizia minha mãe quando a gente levava um susto. Nada como um afago e a mão eleitoral de alguém dizendo que “foi apenas um susto!” Nos sentimos nervosos na platéia comendo pipoca e vendo os leões agindo no picadeiro. Mas depois, no circo da vida real, mais ou menos a cada quatro anos, vem alguém passar a mão na cabeça da gente, dizendo, “pronto passou, daqui pra frente será diferente”!
Ufa! Desamasso o saquinho e ainda encontro uma pipoca, que escapou dos dedos nervosos. Uma sensação de vitória! Em meio aos caroços não estourados, encontro a mais saborosa de todas: a pipoca da alienação.
E as crianças, e o aborto? Não sei, tenho mais o que fazer, tenho meus brinquedos preferidos: meu trabalho, meus amores, minhas preocupações. Sonhar com a próxima sena acumulada. Tenho certeza que daqui a quatro anos alguém virá bagunçar meus cabelos e dizer, está tudo bem, foi apenas um susto.