Estive em
dois funerais recentemente. Um cristão, outro judaico. Privilégio de quem observa e não está diretamente envolvido no clima emocional, percebi cada um com seus
detalhes, apesar de compartilhar a dor e a tristeza dos meus queridos
amigos e suas imensas perdas: dois pais, muito triste.
A morte,
inevitável companheira para a travessia final, sempre está ao nosso lado. Da
mesma forma, a vida. Cada um é tocado por ambas diferentemente durante sua
existência, reagindo conforme os condicionamentos e aprendizados adquiridos,
até que uma das duas nos leve adiante.
No enterro
judaico, durante o caminho para a sepultura, as conversas eram raras e a
solenidade tomava conta do ambiente. Meu amigo ofereceu-me um kippah,
coloquei-o. Falava-se baixo e no caminho até a sepultura ocorreram diversas
pausas seguidas de orações, pareciam hesitar em deixar o morto seguir seu
destino ao pó. Caixão na terra, sem laje ou cimento. Achei o simbolismo muito rico.
No ofício
cristão, dentro da capela o clima era mais descontraído, algumas pessoas
falando alto, risadas e brincadeiras entre conhecidos tentavam evitar o tema daquele
encontro numa fria e chuvosa tarde. Fui persuadido pelo oficiante e pelos
familiares a participar da cerimônia. Divididas as falas da solenidade,
passou-se ao oficio fúnebre. Num determinado momento o oficiante me chama para
conduzir uma parte e, ops..., não era hora: era o momento de a filha trazer um
testemunho sobre o pai falecido. A vermelhidão traiu a pressa do pastor, mas o sorriso
da filha em minha direção dissipou qualquer tensão.
Achando que
a fala alongava-se, novamente o oficiante chegou-se a mim e sussurrou-me ao
ouvido: “-chega perto para ela saber que já deve ir encerrando”. O que é que
tinha de errado com ele, pensei? Olhei para a amiga, lágrimas escorrendo em seu
rosto e voz embargada ao contar a dramática história de seu pai, professor perseguido
por militares em Santa Catarina durante o período do golpe militar. Resisti à
idéia e respondi: quando ela terminar está bom, vamos aguardar. Eu estava aproveitando
o Kairós e nem um pouco preocupado com o Cronos.
Enquanto
ela falava, reparei que o corpo estava depositado sobre um pesado bloco de pedra.
Não pensei em repouso, mas em origens. Michelangelo e suas esculturas vieram à
mente, Davi, Pietá, Moises e tantas outras igualmente extraídas da rocha,
pacientemente, com arte, martelo e cinzel. O corpo morto deitado sobre o
granito deu-me uma breve visão da vida e das pessoas. Ali estava deitado um
homem que viera do pó.
Nascemos
pedras brutas. Diferentes mãos, o martelo do tempo e muitos cinzéis vão dando
forma ao bloco do qual somos extraídos. As primeiras batidas são dadas pelos
pais, esculpindo seus filhos com algumas imagens na cabeça: desejam que ele
seja “alguém. Cabe a eles começar o trabalho e apresentar sua arte para o mundo.
Faltam muito detalhes, mas a estrutura básica está lá. Eventuais trincas surgem
neste processo e serão levadas vida afora, pois o bloco não pode ser
substituído. Ano após ano os pais vão trabalhando, toc, toc, toc...
Com certa
força e habilidade eles vão dando forma e conteúdo ao ser. Então um dia essa
pessoa em construção será levada para a escola. Surgem outras crises, novas
rachaduras no granito: o sistema educacional e os amigos darão suas marteladas
com uma visão diferenciada da dos pais, usando outros cinzéis, tec, tec, tec...
Ao longo
dos anos, a família e o sistema educacional vão trabalhando o granito, cada um
com suas marteladas, muitas vezes um desmanchando o trabalho do outro. Depois
de muitas pancadas e pó, a rocha adquire forma definida, uma pessoa: de pedra! Ela
também aprende a usar as ferramentas do processo e vai batendo e lapidando a si
própria, trabalhando detalhes: tic, tic, tic...
De vez em
quando, entrega o cinzel para outros: a esposa, o marido, um patrão e por aí
vai. Ela mesma aprende a dar marteladinhas nas esculturas alheias. A habilidade
de cada um em permitir ou não que mãos estranhas interfiram em sua estrutura determinará
cada vez mais a sua forma final. O mercado, o trabalho e a vida vão fazendo sua
parte sem pedir licença: tac, tac, tac..., em ciclos até soar a última
martelada.
Tocs e tecs
das talhadeiras, tics e tacs do tempo, revelando a pessoa-produto da família,
sistema educacional e profissionalização: foram talhados para o trabalho! A
estátua é destinada para seu fim e exposta em salas, fábricas, consultórios, cabines,
praças, fábricas, ruas, quartéis, cada uma ocupando seu espaço. O Mercado produz
ídolos com o seu toque, como uma grande Medusa que transforma em pedra todos os
que dela se aproximam.
Cada um
assume uma forma, lapidados por condicionamentos seculares. Interessante é que
a cor do granito e sua origem determinam seu valor. Algumas pessoas possuem
riqueza de detalhes, outras, mais brutas, são usadas para fins menos nobres. O
domínio da estética sobre a ética fascina mais do que o contrário.
Porém
existe um mistério, que ainda fascina as pessoas. Por algum motivo, algumas
estátuas começam a escutar o silêncio, percebendo sons inaudíveis. É um som
surdo, denso, rítmico, tuc, tutuc, tuc... tuc, tutuc, tuc...
Que som é
esse? Como em um momento de iluminação, a origem é finalmente identificada por
quem procura: vem de dentro da estátua, um som abafado, contido, como se fosse
um código, o código da vida. Um coração batendo, desejando sair de sua cápsula
de pedra, tuc, tutuc, tuc!
Por algum
motivo inexplicável há vida dentro da pedra. Porém, camadas de rocha impedem o
acesso ao interior e se alguém desejar libertar o coração, o peito deverá ser
aberto. A estátua, porém, corre o risco de se partir: a ousadia pode custar
caro. Mas na vida tudo que é bom é arriscado.
Estruturas
que aprisionam, escravizam e determinam comportamentos devem ser partidas para
liberar a vida. Quem não estiver disposto a sacrificar seus ídolos não poderá
crescer, mas quem desejar correr o risco verá o coração de pedra transformar-se
em um coração de carne e vibrante. Quem ouve o silêncio interior chega a um
momento de escolha. Cada pessoa deverá olhar para dentro de si e tomar sua decisão:
continuar idolatrando o TER ou reconhecer que um novo caminho pode ser
trilhado. A verdadeira crise não é externa, mas interna: é a crise da consciência
e da coerência, despertando para a nova vida, para o SER.
Superar
esta crise exige renúncia. Libertar-se de tantos condicionamentos exige
disciplina. Cada passo nesse caminho é como a martelada com o cinzel no peito,
dia a dia, até atingir o coração e libertá-lo. Neste momento um milagre acontece:
o corpo adquire sensibilidade, flexibilidade e consegue sair da rocha! É a vida
saindo da rocha como o Cristo ressurreto, após morrer para si mesmo.
É preciso
saber pausar, é preciso aprender a ouvir, é preciso sentir. A pausa dará a
capacidade de perceber os sons da alma e o ritmo da vida, mesmo em meio ao
burburinho do dia a dia. Entramos no mundo através da primeira inspiração, e
dele saímos entregando a última expiração. Temos a data de entrada, mas não
sabemos a da saída.
Viver é ter
consciência do que é feito no intervalo deste breve momento.


