Só vou voltar depois das três (...)
Todos os
dias, todas as noites, milhares de adolescentes e jovens saem de casa,
perambulando por ruas, baladas, carros, festas, botecos, programas. A pé, de
ônibus, de carro, cada um conforme sua condição socioeconômica, mas todos se aventurando
de uma maneira ou de outra e vivenciando situações de risco físico ou
psicológico. Na maioria das vezes chegam depois em casa, sóbrios ou bêbados,
felizes pela liberdade consentida, tolerada ou ignorada por seus pais.
Alguns,
porém, não voltam para casa. Cabe aos pais a triste missão de reconhecê-los em necrotérios
ou cenas de acidentes. Alguns filhos simplesmente desaparecem para sempre, o
pior dos cenários, impedindo o luto que também traz a possibilidade de cura ao
fechar um ciclo. Não falo das tragédias inevitáveis, inerentes ao ser e à
existência humana. Mas das que poderiam ter sido evitadas.
Conforme a
classe social, o noticiário alimenta a dor e a tragédia buscando culpar o Estado,
a bebida, o tráfico, o excesso de velocidade, as “amizades erradas”, ou
genericamente, “a violência”. De forma quase unânime, até para se respeitar a
dor da perda, buscam-se culpados fora do ambiente doméstico. Falar de uma
possível responsabilidade dos pais nessa hora é um tabu, seja em que ambiente
for: “o que seu filhos adolescente estava fazendo na rua às três horas da
manhã?”
Mas é
preciso ter coragem e ousadia. É preciso considerar a possibilidade. E é
preciso reconhecer e colocar para fora o que está silenciosamente na mente de
pais e mães após uma tragédia com seus filhos: será que esta tragédia poderia
ter sido evitada?
Algumas vezes,
não. Mas em muitas situações, sim!
Vivemos hoje
uma situação narcisista de pais que pensam apenas em si: muitos filhos vieram
para resolver algum problema do casamento, ou por imposição social. Ou foram
resultado de namoros, festas, bebedeiras ou qualquer outra irresponsabilidade
em nome da liberdade e da alegria. Ninguém questiona comportamentos e é
proibido proibir. Recusando-se a amadurecer e aprender com seus erros, estes
pais, jovens ou não, continuam depois a alimentar seu narcisismo.
Desejam que
seus filhos sejam seus amigos e confidentes. Nada contra a “amizade” com filhos
e filhas, mas ela deve ser subordinada ao papel de pais. A paternidade
responsável possui regras, limites, horários, comportamentos aceitáveis para
uma convivência familiar sadia em uma sociedade cada vez mais sem normas.
Os pais
acabaram seduzidos por psicologias baratas estritamente comerciais, gerando
mensagens confusas para seus filhos. Infantilizados, desculpam-se com conceitos
como “tempo de qualidade” para justificar sua ausência. Na verdade, ao
abandonar os rígidos limites de gerações “castradoras” do passado abandonaram
também sua responsabilidade de criar filhos e filhas com ética e valores
sociais adequados à construção de uma sociedade que compartilha o mesmo teto.
Muitas
instituições alimentam a alienação dos pais e a distância com os filhos. Além da correria semanal, nos
finais de semana existe a correria das igrejas, dos clubes, das associações: pais e filhos deixam de conviver uns com os outros pois precisam cumprir uma agenda apertada de reuniões e programas, paradoxalmente, focados "na família"!
Como disse
Sergio Sinay*, pais confusos confundem “cumplicidade com amor, condescendência afetiva
com presença emocional e autonomia pessoal com ausência de vínculos”. Em outras
palavras, não fazem nada que possa gerar algum tipo de “trauma, conflito ou decepção”
ao filhinho/a mimado. Praticamente transferem aos filhos a responsabilidade de criarem-se
a si mesmos. Ou terceirizam sua responsabilidade à escola ou igrejas.
Pais
investem na educação centrada na aparência, ou na desculpa de permitir aos
filhos “vivências” sociais necessárias à sua inserção em um mercado altamente
competitivo. Afinal, os filhos devem aprender a “serem eles mesmos”! Gastam nas
melhores escolas, melhores cursos, viagens sem fim de seus pimpolhos, para
receberem o olhar de admiração de colegas e amigos. Mas não sabem o que fazer
com eles quando estão todos juntos.
Esses pais
passaram a temer seus filhos, imitá-los (até no vestuário!), assimilar suas
preferências, vivendo debaixo da tirania de uma sociedade de consumo que impõe
produtos, parafernália e experiências “necessárias e importantes” para sua
formação. Por serem narcisistas, sucumbem aos modismos mercadológicos para
serem aceitos diante dos outros pais.
Depois ficam horrorizados quando os
filhos se matam, roubam, traficam, promiscuem, embebedam-se, e chegam em casa
com netos precoces.
Esses filhos,
sem exemplo e referências em casa, buscam então ídolos que são tão consistentes
como a fumaça do baseado ou que já morreram de overdose. Aprendem a manipular
pais passivos que aceitam essa manipulação devido a sentimentos de culpa.
Filhos mimados
e com acessos de birra aprenderam a manipular seus pais dando ‘shows’ em
shoppings, festas ou reuniões de família para conseguirem a satisfação de seus
desejos. Depois, tornam-se assassinos de outros filhos através da ira misturada
a drogas, álcool, armas ou direção irresponsável. Por não terem tido limites e
educação em casa, tornam-se políticos corruptos, bandidos, manipuladores
midiáticos, sexistas, reproduzindo uma sociedade de consumo sem limites e que
existe para lhes satisfazer os desejos.
Quando esses
filhos soltos e irresponsáveis finalmente enfrentam uma situação de risco que
escapa ao controle, acontecem as tragédias para si e para outros inocentes passivos
em seu caminho. Aí, tardiamente, alguns pais despertam.
Ficam
perplexos, atordoados, sem entender o que aconteceu, buscando culpados fora de
casa. O caminho é, um dia, acordar e começar a fazer as perguntas pós-tragédias
antes das mesmas acontecerem: como fui deixar meu filho/a tomar decisões que
competiam a mim?
Será que...
(...) São meus filhos
Que tomam conta de mim (?). (Pais e Filhos, Legião Urbana)
Que tomam conta de mim (?). (Pais e Filhos, Legião Urbana)
*Sergio Sinay - A Sociedade dos Filhos Órfãos. Best Seller.


