Cuba libre!
“A morte de qualquer homem me diminui, porque sou
parte da humanidade; por isso, nunca busque saber por quem os sinos dobram,
eles dobram por ti”. Por Quem Os Sinos Dobram / E. H.
I
Cuba Libre
é uma bebida, mas também pode ser um texto cheio de duplo sentido. Desta forma,
leia com moderação.
Era uma vez
uma cidadã cubana que visitou o Brasil, representando legitimamente o que cuba
tem de melhor e de pior, como cada um de nós quando sai por aí dando suas
voltas turísticas, deixando rastros nem sempre louváveis de nossa passagem.
Pois bem, nem
bem a moça desembarcou e choveram manifestações de apoio ou repúdio, conforme agendas
ocultas ou escancaradas de terceiros. É impressionante, eu não sabia, como
existem especialistas em Cuba que conhecem na intimidade a ilha e seus
habitantes. De forma particular, fiquei envaidecido como esses legítimos
brasileiros conhecem mais de outro país que o seu próprio, numa capacidade de
assimilação amorosa impressionante!
E os
comentários? “-ela é marionete de ....” Tive que rir da infelicidade deste
povo. Coitados dos cubanos, são todos marionetes! A marionete, todos sabem, são
fantoches que se movimentam através de cordinhas conduzidas por mãos
terceirizadas. Nada disso acontece no Brasil, que tem o regime democrático mais
eficiente, transparente e honesto do mundo. Nosso povo é crítico e apenas elege
gente de bem. Ninguém se deixa manipular. Somos muito inteligentes e logo
percebemos quando os outros são manipulados.
É natural
que em Cuba existam pessoas que aceitam passivamente o regime. É também natural
que existam pessoas que o aceitem e o defenda apaixonadamente. Por outro lado,
é natural que existam pessoas que detestem o regime, mas se adaptaram a ele,
tocando suas vidas da melhor forma possível, esperando que um dia a realidade
mude por si só. E tem aqueles que não aceitam o que está acontecendo, se
posicionam e tentam dizer por que pensam diferentemente, correndo os riscos
inerentes a quem tem opinião própria.
Também
acontece que pessoas que não vivem a realidade cubana achem que entendem mais
daquela nação caribenha do que qualquer um de seus cidadãos. E elas possuem um
motivo para isso: visitaram Cuba uma ou algumas vezes, leram muito seletivamente
o que outras pessoas escreveram e descobriram no globo que Cuba está no Caribe.
Pronto: formaram-se doutores em Cuba com uma profunda perspectiva histórica de
60 minutos. OK, isso acontece, mas é mais uma paspalhice humana! Porém, fazer o
que, o mundo também é dos patetas. E eles estão bem instalados em ambos os
lados desse debate: à esquerda e à direita, a insensatez não escolhe partido, é
um fenômeno universal.
Particularmente,
com minha bebida em mãos, brindo tanto ao fervoroso revolucionário quanto ao seu
mais ferrenho opositor. Respeito-os, pois eles vivem na própria pele suas
convicções. Se estiverem certos ou errados, se são lúcidos ou míopes, será
apenas minha avaliação distante, mesmo sendo apaixonada. São conclusões
decorrentes de minha perspectiva, de meus condicionamentos históricos, de minha
aprendizagem e de minha zona de conforto. Vejo-me afastado da arena real do
conflito.
Creio que
tanto defensores como opositores ao Regime possuem motivos, boas explicações e
teses para serem o que são e afirmarem o que afirmam. Eles possuem a autoridade
de quem responde diretamente por suas declarações, colocando seu pescoço e o de
sua família à mercê dos carrascos de plantão. Por isso, mesmo discordando por
algum motivo, respeito sua história e defendo o direito de se manifestarem. Ao argumentar,
devo também me abrir à possibilidade de mudança. Mas quando entro numa guerra,
apenas a vitória me interessa.
O que é difícil de aceitar são posicionamentos do tipo “este lado está totalmente errado e o meu
lado está totalmente certo”, numa guerra de palavras de ordem e clichês. Isto é
peculiar de arrogantes neuróticos, belicosos microditadores e suas marionetes.
Típico de quem não consegue viver sabendo que também há inteligência, razão e
coisas muito boas do outro lado da questão. Em outras palavras, existe vida,
somos irmãos mesmo pensando distintamente. As generalizações são sempre burras
e estão a serviço de forças marionetantes de sempre.
II
No final do
ano passado assisti a um filme sobre a vida de Ernest Hemingway, mostrando um
pouco da história deste Nobel de Literatura e suas lutas – literalmente –
pessoais e ideológicas. Ele, norte americano, com alguma consciência política, mente
brilhante com uma aguçada percepção social, batalhou durante sua vida pela
coerência. Escreveu muito sobre suas lutas internas e externas, tornando-se ao
mesmo tempo autor e personagem da maioria de suas histórias.
Li dois de
seus livros: “O Velho e o Mar” e “Ilhas da Corrente”, assistindo posteriormente
seus respectivos filmes. Assisti ainda ao clássico filme baseado em uma de suas
obras mais famosas, “Por Quem os Sinos Dobram”, de 1943. A cena de Gary Cooper
e Ingrid Bergman no saco de dormir, enquanto a guerra civil espanhola se
desenrolava, deu o que falar e teve que ser refeita: as primeiras tomadas foram
consideradas “muito realísticas” para os padrões da época. Sempre há lugar para
a paixão em meio às crises: ela nos ajuda a manter a humanidade em meio ao
caos.
Sempre fui
fascinado pelas complexas relações humanas, as pessoas e seus conflitos
existenciais, suas lutas internas sendo levadas ao campo de batalha externo. O
ser humano é tão ambíguo como as voltas e reviravoltas de antigos aliados
transformados em inimigos e vice-versa, defendendo causas de terceiros. Ao longo
da história as teses e antíteses ideológicas são transformadas em sínteses
campais com muito sangue derramado. O vencedor tem sempre razão, e ao perdedor
resta o banimento, o ostracismo, o pardão ou a exploração econômica. Depois,
geralmente muito tempo depois, a percepção de que nada vale quando o sangue
derramado entre irmãos mancha o campo que produz o mesmo pão para todos. A
morte de qualquer homem nos diminui.
Se as
pessoas refletissem um pouco mais elas não iriam à guerra e não elegeriam
líderes e ditadores que as promovem, arrastando multidões para a morte em nome
de seus sonhos megalomaníacos e “sacadas” históricas. Talvez até não elegessem
ninguém: se autogovernariam em coletividades autônomas e cooperativas entre si,
mas isso é outra história, uma utopia de malucos fraternos. A autonomia exige
educação crítica e isso nunca foi estratégico para líderes personalistas, promotores
de guerras e revoluções.
Hemingway
me seduziu com sua própria história: suas venturas e desventuras pessoais, sua
busca de sentido para todas as coisas e a vida cheia de viagens, belas praias,
revoluções, livros, mulheres e rum. Estes elementos, combinados em excesso
entre si, tendem a gerar reações explosivas, como ficou demonstrado ao longo de
sua vida. Não apenas ele, mas este tipo de pessoa me fascina por buscarem, cada
uma à sua maneira, entender o homem em meio a todas as suas contradições e ter
a coragem para viver suas próprias ambiguidades, muitas vezes mudando de
posição conforme constrói seu conhecimento. No final, é a coragem para mudar
que me empolga nas pessoas.
Mesmo
levando uma vida errante, elas anseiam pela coerência. A busca é a marca viva
para sua existência. Os grandes e corajosos exploradores, inconformados com seu
tempo e seu mundo viviam com esta paixão dentro de si. Infelizmente, Hemingway resolveu
meter uma bala em sua cabeça, deixando a vida para entrar na história. Será que
ele soube de Getúlio?
III
Voltando: ‘cuba
libre’, além de uma expressão revolucionária, é a combinação paradoxal do melhor
rum do mundo (o caribenho socialista) com a pior bebida da humanidade, a
Coca-Cola capitalista norte-americana, pelo que ela representa para a saúde em
geral. Uma infinidade de combinações a partir de ambas é possível, com diversos
outros elementos como limão, gelo, sucos, diferentes frutas. Não há limites,
desde que você seja criativo e corra os riscos. Cada um tempera sua cuba
conforme desejar, apesar de existir um dosador universal para essas coisas.

O melhor do
mundo pode estar nesta interface improvável, mas possível: um copo de
socialismo com capitalismo, com limão e gelo! OK, talvez isso seja um exagero,
mas reforça a metáfora: quem determinou que o mundo tenha que ser dividido
entre “esquerda” e “direita”, ou que determinados anseios são legitimados
apenas se condicionados ideológica e politicamente? Estes conceitos surgiram e foram
historicamente plantados, servindo apenas para depois provocar divisões,
caudilhos e guerras e um bando de chatos. Ideias devem ser consideradas como
patrimônio histórico da humanidade, validadas pelo princípio maior da
convivência pacífica e justa entre as pessoas.
Qual é o
lado mais importante do cérebro? Devemos reaprender a ver a organicidade do
pensamento e sua estreita correlação com o corpo humanitário.
Uma boa
bebida favorece a diversão entre amigos e gera boas conversas. Mas em altas
doses também serve para transformar qualquer idiota em uma mente brilhante, provocando
aqueles intermináveis debates de final de festa, olhar taciturno, sobrancelhas
franzidas, ares de sabedoria e bafo de onça: o bêbado chato. São os embriagados
ideológicos e seus discursos intermináveis. O rum tira-lhes a autocrítica, a
Coca os faz arrotar arrogância.
Não se sabe
ao certo em que proporção a Coca e o rum misturados geram revoluções, porém
ambas têm servido para muita discussão, rompantes de falsa sabedoria, declarações
‘finais’ sobre qualquer assunto a partir de fontes “confiáveis”, e tudo isso em
meio a clichês de efeito. Como estratégia final, o chato-convicto sobe o tom de
voz e, na medida em que faltam os argumentos, começa o ataque pessoal. Faz
acusações que ninguém pode provar mas servem para desmoralizar. Bêbados
narcisistas, sem autocrítica e embriagados pela presunção.

Em 1898, no
processo da independência cubana da Espanha, os revolucionários insulares encontraram
nos norte americanos um forte aliado. Sem eles, Cuba não alcançaria tão cedo
sua autonomia. Porém, os USA tinham interesses específicos para tirar os
espanhóis de cena na região. Cuba passou a ser tratada como uma sesmaria
açucareira, com a visão capitalista mercantilista, baseada em latifúndios e mão
de obra praticamente escrava. A ironia é que com isso as sementes da revolução por
vir vieram da América do Norte.
Os cubanos
continuaram pensando: de que adianta trocar uma dominação por outra? A ansiedade
cresceu até transbordar na revolução: em 1959 o povo alcançou uma alternativa popular
de governo depois de séculos de dominação. Saiu a espanha, saiu Fulgêncio, entrou
Fidel. Saiu Kennedy e entrou Nikita Kruschev, no xadrez ideológico da segunda
metade do século XX. Bispos e peões de cada lado continuaram servindo aos
interesses dos respectivos novos reis, sempre os primeiros a serem
sacrificados.
Confirmada
a revolução, os americanos ficaram na maior ressaca. Engoliram goela abaixo
galões e galões de rum, como perus na semana de ações de graça. Ressentidos e
posando de vítimas, mas sem força moral, passaram a fazer a chantagem favorita
do capitalismo: garrotearam comercialmente o povo cubano, criando e
desenvolvendo criativas formas de bloqueio. Os Estados Unidos comportaram-se
como um marido bêbado traído. Por não
poder se vingar diretamente da mulher, cortou sua doce pensão (compra do açúcar
cubano) e passou a persegui-la, tentando-a fazer desistir de seu amante e abandonando
a família à sua própria sorte.
Só que o
amante era abastado e bancou a família cubana, mostrando sua virilidade na
forma de mísseis eretos contra o capitalismo pragmático, que viu mais prejuízo
que ganho em um eventual conflito armado. O sistema sempre dá um jeito de
salvar sua pele.
Hemingway resolveu
doar sua casa na ilha para o governo revolucionário, que foi transformada em museu
em sua homenagem. Afinal, ele morou cerca de vinte anos em Cuba, numa relação
de amor e ódio típica de amantes, dando notoriedade ao seu povo e seu rum,
mesmo agora sem Coca-cola.
Junto com a
Coreia do Norte, Cuba é o único país do mundo que não vende o famoso
“capitalismo engarrafado!” É claro, isto oficialmente: no mercado negro ela é
encontrada, após as devidas vênias propinais, sendo também tolerada em ambientes
turísticos.
Curiosamente,
em 1906 Cuba foi o segundo país do mundo a engarrafar a Coca-Cola fora do
território americano, depois do Canadá. A revolução tirou a Coca de Cuba, mas
não conseguiu tirar a Coca dos Cubanos: afinal, uma doce lembrança do
capitalismo e sua liberdade de expressão com muito gelo ainda restava. Ademais,
como continuar a tomar cuba livre sem a Coca?
Para evitar
uma revolução dentro da revolução, liderada por consumidores em crise de
abstinência, o partidão espertamente tratou de fabricar sua ‘Cola’, surgindo a
“Tu-Kola” cubana. É uma bebida que possui a cor, embalagem e logo muito
parecidas com a americana. Foi o jeitinho de manter a cuba livre.
Mas o
melhor, intencionalmente ou não – acho que sim, afinal, todo revolucionário
estuda muito – foi o duplo sentido do nome da Coca cubana, capaz de deixar
qualquer turista maluco e o nativo com um sorrisinho sacana na boca. Foneticamente,
“Tu-Kola”, soa literalmente, como “Teu-Rabo” (tu cola), ou então, “Tua-Fila”
(muito apropriado, no Brasil também), ou, com certa liberdade, “Tua-bunda”!
IV
O bloqueio
econômico à ilha imposto pelos Estados Unidos desde 1962 é uma das coisas mais
anacrônicas e estúpidas feitas. Fica pior ainda com a mudança da conjuntura
política mundial após a queda do Muro de Berlim em 1989, sinalizando o final da
Guerra Fria. Atualmente, com exceção dos Estados Unidos, de Israel, das Ilhas Marshal
e de Palau, existe uma resolução formal das Nações Unidas pelo fim do embargo,
repetida já mais de 16 vezes. Na verdade, I. Marshal e Palau nem contam, pois
são ilhas sob o protetorado dos EUA.
Os demais países,
incluindo o Brasil de todos os governos, aceitam o embargo sem tomar medidas
práticas. Não fazem isso por covardia comercial e por excesso de Coca-Cola em
sua cuba livre. Diplomaticamente, nosso atual governo adotou uma postura
pragmática relacionada ao comércio exterior e segue a cartilha dos USA,
conforme disse o ex-presidente Lula: “se é bom para os americanos, deve
ser bom para os brasileiros.” Ele
defendeu o direito do Governo brasileiro de também abocanhar o mercado chinês, independente
do que ocorra internamente naquele país em termos de Direitos Humanos e
democráticos.
Por que se pode fazer comércio com a China, mas não
com Cuba? As explicações não possuem nenhuma lógica, nem na história, nem em
lugar algum, a não ser, é claro, a lógica norte americana. A Águia pode estar
depenada mas ainda voa.
Enquanto isso, a disputa boba entre
esquerda e direita faz parecer que ainda existam estas facções no cenário
político dominado pela economia de mercado globalizada. Partidos e militantes
defendem pontos de vista anacrônicos com comportamentos estereotipados que
remetem mais a torcidas organizas e seus cânticos de guerra. Fundamentos
históricos ou fatos são relativizados
por opiniões casuísticas.
O que tem
se nota, infelizmente, é a prática da intolerância-clichê: “sempre gostei de
rum, não quero Coca-Cola”. Ou, “prefiro Coca e acho que tomadores de rum são
bêbados.”
V
Percebemos e-militantes
do twitter e do facebook muito rápidos para apoiar ou condenar muitas coisas,
mas incapazes de mudar de comportamento e gerar em si mesmos a mudança que
desejam. Basta conferir os indicadores sociais e comportamentais do brasileiro
para perceber que a saúde cidadã de um povo anda na UTI. Estas pessoas, em
geral, são adeptas das passeatas-de-poltrona, mas não estão dispostos a levar “Tu-Kola”
para as ruas, para o trânsito, para as escolas e universidades. Pior: posam de
intelectuais, mas, vivem do sistema. Condenam aquela moça cubana, apoiam a moça
cubana, mas continuam fazendo as mesmas coisas.
Os
capitalistas-socialistas, ou vice-versa, passam rapidamente do discuros social
ao consumismo irracional. Continuam indiferentes às questões estruturais do
país. Existe muito mais paixão e achismo pseudo-intelectual do que luz em toda
essa conversa sobre a Yoani Sánchez cubana, seja de que lado for. Cada posição
deseja apenas fortalecer sua trincheira ideológica.
O fato é
que existem muito mais pessoas viciadas na Coca-cola capitalista do que no rum
socialista, apesar dos males evidentes. Sei também que um copo de Coca é muito
pior para a saúde do que a mesma quantidade de rum. Falei da saúde, não de
trânsito – ou seja, conforme o contexto, evite um, outro, ou ambos. Educação
crítica serve para discernir as dosagens conforme o contexto.
Mas pensar
com crítica exige análise, flexibilidade e sabedoria. Temos excesso de serviços
de inteligência, mas carecemos desesperadamente de sabedoria.
Um amigo da esquerda ultravioleta chama, com
ares de seriedade, a Coca-cola de “o líquido negro do capitalismo”. Outro, mais
radical ainda, já batizou o xaropão de “cloaca-cola”, sempre fazendo mais um ou
dois comentários adicionais que é melhor deixar pra lá. Como
qualquer bebida, você pode tomar até cair ou apenas saborear. É preciso saber
discernir os mais de 50 tons de cinza no espectro cromático-ideológico da
mistura da Coca com o Rum.
A mistura
entre os dois ingredientes deve ser equilibrada até onde for possível – afinal,
o rum cubano aliena aqueles que dele abusam, chegando a relatos de coma
alcoólica que já dura mais de 50 anos, quando era ainda produzido em
destilarias escondidas na Sierra Madre. Já o abuso da Coca torna as pessoas
gordas, indolentes, insensíveis, mesmo entre os mais devotos religiosos. Em
ambos os casos, o próximo é esquecido e abandonado em suas necessidades.
As pessoas
rapidamente esquecem que viver debaixo de um sistema político, seja de esquerda
ou de direita, significa submissão às suas formas de controle, de manipulação e
de opressão: a alienação pelo discurso sem resultados práticos ou a insensibilidade
e apatia decorrentes do conforto consumista que satisfaz os pecados da carne.
Em ambos, a resistência crítica e o desejo de liberdade do sistema acarretam em
opressão pela “reeducação” forçada, o pau de arara, o paredão real ou
midiático, a prisão político-pedagógica, ou simplesmente a falência, a morte
sumária, a infâmia diante dos seus.
Para a monoteísta
esquerda, Deus existe na forma do culto personalista para o “pai” ou “grande líder”,
ou ainda, como “chefe supremo” do povo. Sua ideo-teologia é a adoração cega, repleta
de símbolos e relíquias espalhadas pela cidade e dentro de palácios. Qualquer
desvio de culto fora do livrinho vermelho é considerado apostasia, passível de “autocrítica”,
ostracismo ou apedrejamento público. O Socialismo é seu único Deus e o Estado é
seu profeta. Não há salvação fora do partidão, que é dirigido por profetas
mosaicamente incumbidos da libertação do povo, que vive enganado na terra da
servidão cocacolonense.
O poder é
mantido na litúrgica burocracia estatal. A coesão dos cidadãos é pela força do patrulhamento
ideológico. As bênçãos e as graças são concedidas na forma de cargos aos
devotos mais fieis. O povo vive às custas das grandes realizações do grande
Pai-estado, a quem sacrifica seu livre pensar. Todos são iguais, cada um na sua
categoria de igualdade. Os líderes são mais iguais dentre os iguais e regulam
os pecados alheios perdoando os próprios desvios em nome da sua idéia de ordem
e do progresso.
No
socialismo-comunismo as igrejas não existem oficialmente, ou funcionam
modestamente sob controle do estado, que é intolerante com outras formas de
culto. Sua fé é subversiva e cada crente é um ministro e cada casa é uma igreja,
sem necessidade de mediadores. O carisma, ou a graça, é a marca de serviço uns
aos outros.
No Capitalismo
Politeísta, os deuses tornam as coisas um pouco mais complexas. A ideologia é a
do individualismo, o self-made-man. O mítico “Homem de Malboro” representa o
missionário heroico que conquistou sozinho a tribo inteira. A pessoa é o que
ela tem, e a liturgia capitalista inclui solenidade com o sacrifício estoico do
tempo, da família, dos amigos e da saúde aos deuses do Mercado. O ideal de vida
é a fama, a prosperidade e a fortuna. O sucesso é medido pela quantidade de
sexo, dinheiro e poder. O trabalho e a terra não são do homem, mas produtos de
mercado: o mercado paga quanto?
O Dolar é o
seu Deus e o Mercado é seu profeta: in god we trust! Não há salvação fora do capital.
O profeta mercado, em sua missão de libertação do povo da pobreza, governa,
escravisa e distribui bênçãos na forma de fidelização do cliente e prêmios. A
liberdade é para todos que possuem dinheiro. Pequenos deuses são adorados e
estão distribuídos em casas de habitantes orgulhosos por mostrarem suas últimas
ultramodernas aquisições.
Pensamentos
discordantes existem apenas se ficarem também no mundo das ideias. Os exagerados e iludidos que ousam dizer que um
pouco de rum pode fazer bem à saúde são prontamente rechaçados, ridicularizados,
perdem seus direitos e são suicidados ou mortos “acidentalmente”. Fruto da
culpa institucionalizada, foi criada a ‘responsabilidade social’, que é um
setor na sociedade que cumpre a função de aliviar consciências culpadas pelo
resultado óbvio das operações financeiras e consumismo: a miséria e a pobreza.
Mas quando entra um pouco de rum a mais na cuba livre, o estado trata de
distribuir bolsas de tosos os tipos, enquanto o povo gostaria mesmo é de ter
dinheiro para colocar nas bolsas.

As igrejas
capitalistas são toleradas e mantêm seus ritos exploratórios acendendo incensos
a Mamon atrás dos altares a Jesus. Mamon é como o Deus Dólar era conhecido nos
tempos bíblicos. Ao associarem culpa ao dinheiro, as confissões arrecadam
usando estratégias comerciais de primeira linha, adaptadas ao seu público alvo
e seu nicho de mercado, em troca de produtos bem elaborados. Literalmente,
algumas usam um eficiente marketing infernal.
O discurso
de prosperidade de umas não é diferente do discurso de piedade de outras, já
que se movem pelo mesmo objetivo final. A voz suave, a luz de velas, o gospel
light e o culto com decência e ordem servem para manter estruturas cada vez
maiores e feudos denominacionais que de vez em quando entram em guerra pelo
espaço e pelas almas dos aldeões. Templos milionários e teólogos bem formados
justificam a teologia de mercado. É a lógica do capital: a ostentação é sinal
de poder e sucesso da denominação-empresa.
Já que no
final é a grana que importa, o jogo de sedução é mais gostoso que o estupro sem
preliminares para fiéis cada vez mais acostumados às bacanais, verdadeiras
orgias de arrecadação dominical.
VI
Por algum
motivo misterioso o tropicalista Caetano resolveu que a vida era mais Alegria,
Alegria, ao cantar “Eu tomo uma
Coca-Cola, ela pensa em casamento”, em 1967. Tomar Coca caiu de vez no
gosto da juventude e mesmo Fidel devia tomar uns goles brindando a cada deserção
do exército de Fulgêncio durante a luta revolucionária.
O que pode
ser diferente, daqui pra frente, minha gente, é repensarmos nossas “clássicas”
posições, entendendo que, afinal de contas, o discurso sectário serve apenas
para alimentar o sistema segregacionista das ideologias de sempre. E como já disse
o profeta Capitão Nascimento, o sistema é phoda!
Tanto o rum
como a Coca partem da mesma matriz, a cana de açúcar. O rum é feito do melado
cozido e fermentado da cana. Já a cachaça é feita com o “caldo de cana” fresco,
a garapa, que vai para o alambique sem passar pelo fase do melaço cozido. E o
açúcar segue seu próprio caminho. No final todos se encontram amorosamente no
mesmo copo existencial, selando com um beijo o reencontro.
Ora, o
açúcar compõem em altas doses a fórmula da Coca. E toda discussão passa a ser, em
suma, sobre a mesma cana e a capacidade ideológica de cada parte de dar cana a
quem pensa ou bebe diferente. Uma contradição, seja na metáfora ou na prática.
Isso nos dá
uma boa pista: a humanidade é a mesma, na essência somos todos irmãos e
partilhamos da mesma matriz. Diferimos nas experiências, na cultura, na
cosmovisão e em mais em um punhado de coisas que não são essenciais. Bebemos do
mesmo barril e vivemos no mesmo Brasil.
A melhor
síntese, não apenas relacionado à passagem daquela moça cubana no Brasil, mas
aplicada a qualquer grupo, ideologia, teologia, ou situações de conflito: Viva Cuba
Livre, Rum & Coca-Cola, a qualidade está na mistura, no equilíbrio, na
humanidade da bebida. E sempre poderemos optar simplesmente em beber água e nos
divertir junto com os demais.
O conflito
interessa apenas às lideranças e aos opressores de sempre, que incitam com seu
discurso a manutenção do seu poder. Deixem o povo beber, se divertir e
construir um mundo melhor.
A vida é
curta, e deve ser apreciada sem moderação.
Lula citando uma
antiga frase e referindo-se ao acordo comercial feito com a China, na seção de perguntas e respostas ocorrida no National
Press Club, Washington, em 10 de dezembro de 2002.