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Eu não marcho, ando.
Como
"marcha" gospel, a ação “Marcha Para Jesus” está coerente com sua
proposta. O ‘Jesus marchado’ é o JG, o queridinho e insonso "Jesus
Gospel", o cara das paradas de sucesso e campeão de vendas. Se em 1990 o ‘Engenheiros
do Hawaii’ descobriu que o Papa é Pop, hoje sabemos que Pop é Jesus!
O nome-de-jesus
vende qualquer coisa: salvação, bandas, músicas, teologias, prosperidade,
igrejas, denominações, propriedades. Vende viagens, veículos, camisetas, livros
e pirulitos. Vende graças, curas e bênçãos no atacado e no varejo. O nome-de-jesus
é hétero, é gay, é milionário, é pobre, é opressor e oprimido, é discurso, vende
até atitude. Vamos alavancar as vendas e marchar, mostrando a força de nossos
produtos!
Jesus é Pop,
Jesus é gospel, o nome-de-jesus vende. Aproveitem a liquidação, do Gólgota aos
Shoppings, de Jerusalém para o mundo, Jesus-for-sale! O nome de Jesus não é
mais o nome sobre todo nome, apenas a marca sobre qualquer outra marca: lascas
da cruz com o nome de Jesus!
No nome-de-jesus
se elegem e trocam-se votos e favores, fundam-se e derrubam-se impérios e nações,
justificam-se homicídios em nome de guerras santas e omissões em nome da
missão.
No nome-de-jesus
abrem-se e fecham-se faculdades teológicas, admiráveis mundos novos de vocações
ancestrais. Pra estudar tem que pagar, invista em sua carreira! Não tem grana,
não tem vocação. No rito do poder, fantasiados de pompa e solenidade, mestres e
doutores trocam títulos entre si e pavoneiam-se em rapapés, arrogantes 'memes
fuckyea'.
No nome-de-jesus
campanhas bem intencionadas são feitas, alimentos, roupas, panelas, brinquedos
para todos, relatórios apaziguadores para os contribuintes, mas não se mudam os
hábitos consumistas-alimentares de uma geração glutona cuja fome é o planeta.
Doam-se as sobras de mesas fartas para instituições que terceirizaram o bem
fazer. A culpa é paga mensalmente em templos cada vez maiores, aceita-se cash,
carnê e cartões de crédito: amortize sua culpa em até dez vezes! Dízimo com quem
andas e te direi quem és.
No nome-de-jesus
a unidade cristã é vendida em algumas horas de marcha, mas quem paga a conta é
a hipocrisia ao longo do ano. Depois da festa, cada um vai para sua trincheira
teológica, como gado obediente recolhendo-se ao curral no final do dia.
É esse Jesus
Pop que marcha pregado pelos arautos do “Féstfood”,
ajustados à demanda do mercado. Os templos tornaram-se verdadeiras zonas-fazendas
de conforto. Neles são arrebanhados crentes e teólogos, gente sincera e gente
com muita cera, cada um se acomodando em seu espaço. Pessoas descoladas, revoltadas,
caretas, iludidas, doentes e ativistas de teatro que também aprendem a representar
uma fé conveniente a cada ocasião.
A igreja
confundiu-se com templo e denominação. Nela se refugiam corajosos visionários de
outrora, touros indomáveis, agora domesticados, castrados, bois reacionários de
plantão. Saem de seus redis para marcharem com suas torcidas organizadas,
mostrando a força e as cores de seu time. O boi manso, depois de servir aos
propósitos alheios, segue para o abate mugindo tristemente. Ao fundo, ouve-se
acanção lamento do Profeta Zé Ramalho, Admirável Gado Novo, misturado e
religioso.
Sapateados
e coreografias ensaiadas, dentro e fora dos templos, anunciam bem alto, Jesus is Pop, Jesus is chic! Jesus se
transformou no ícone mais popular do século XX e entrou no século XXI com a
força de um tsunami, Jesus Chic is the Latest
Fashion Trend! T-Shirts for sale!
Jesus Pop,
Jesus Chic, a marca mais transada do mercado! Produto de marketing com um apelo
de consumo irresistível: a aparência do bem. Poderiam começar a vender
camisetas e charutos, CHE-sus, viva la revolucion, vamos conquistar o mundo, vamos
eleger os discípulos de Jesus Pop! - Zaqueu, desce desse carro de som! – Quem,
eu? Tá me confundindo, meu lugar é no topo, sou filho do rei!
O barbudo
de Cuba marchou, foi preso e acabou fuzilado. O barbudo da Galiléia marchou,
foi preso e acabou crucificado. Mas ambos não marcharam apenas um dia, uma vez
por ano: andaram todos os dias, semana após semana, ano após ano até
encontrarem seu destino. Foram coerentes com sua missão. Os dois conheciam
muito bem os riscos de seu caminho e abraçaram conscientemente seu destino, sem
direito a racionalização, escorregadelas teológicas ou políticas na hora do
aperto.
Marchar uma
vez por ano fazendo barulho com as pomponetes e atraindo a mídia é gospel, é pop,
é voto. Mas atenção, o ministério evangélico adverte: barbudos andarilhos acabam
fuzilados ou crucificados, afastem-se deles!
"Se alguém quiser andar comigo, negue-se a si mesmo, tome
diariamente a sua cruz e siga-me.” Acho que isso é um pouco diferente do que seguir um carro de som,
gritar palavras de ordem, rezar nas ruas e ser contra gays e maconheiros. Jesus
é Pop, mas a cruz não é. Jesus é in,
a cruz é out, fora dos centros de consumo. Alternativas?
Ao invés de
apenas uma vez por ano, com saudações mútuas nas praças, as marchas deveriam se
transformar em caminhadas de vida: ocupando favelas, abraçando seus irmãos e
entregando alimentos, roupas e brinquedos diretamente a quem precisa. Ocupando espaços
e ruas abandonados, plantando árvores e flores. Ocupando cargos públicos com
ética e preocupação com cidades e mundos sustentáveis, fazendo uma limpeza nos
poderes.
Ocupem rios
e mananciais com ações de limpeza. Pintem prédios pichados, restaurem escolas e
creches abandonadas. Consolem os doentes, visitem os presos, acolham crianças, órfãos
e viúvas abandonadas. Separem o lixo, reduzam o consumo, construam cisternas e
fontes, parques e jardins. Andem à noite, muitas noites seguidas, levando luz
onde as trevas dominam. Expulsem de seu meio aqueles que, dizendo-se ‘irmão’,
não passam de oportunistas.
Marchar
para Jesus uma vez por ano ou aos domingos é fácil e conveniente. Andar com ele
dia a dia, a vida inteira, é outra história. Experimenta marchar outros fins de
semana para algum lugar diferente do seu templo, da sua zona de conforto, de
sua Meca semanal. Ande dia a dia com ética, dignidade, honestidade, trabalho,
partilha e gentileza.
Pula fora
do caminhão-de-som existencial, aprenda ouvir e fazer perguntas, deixe o vento
fresco bater em seu rosto, sinta a terra em seus pés. A realidade está lá fora.
Sorria e comece a ter tempo para sair com os amigos, reúna-se sem agenda religiosa. Transforme orações
e cânticos em atitudes.
Que a marcha se torne uma caminhada sem pressa, atenta à paisagem, às pessoas, aos
sons e às cores. Quando você começar a despertar e tomar consciência você
encontrará o Caminho. E quem encontra o Caminho não precisa mais marchar, pois
chegou ao seu destino.
PS: aos
familiares, amigos e irmãos que ainda transitam nas instituições: sei
que são sinceros, sei que algumas coisas boas acontecem, mas sei também que um dia
tudo isso passará e vocês encontrarão sentido e descanso para suas almas.
*Foto: Friendships are essential to our sense of who we are. Photograph: Guardian
*Foto: Friendships are essential to our sense of who we are. Photograph: Guardian

Tem sido um desafio criar filhos cristaos sem ser membros de insituicoes com as quais nao mais me identifico.
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