Não se pode
privar um filho de ter contato com as doenças sociais que os cercam, criando-os
numa redoma de isolamento. Igualmente, não se pode criar filhos abandonando-os
e achando que eles vão adquirir resistência por si mesmos às situações de
risco. Em ambos os casos, estarão expostos a perigos fatais sem meios para resistirem.
Ao
contrário, assim como age uma vacina, pode-se estrategicamente permitir a exposição atenuada e
controlada com aquilo de que se deseja preservar: as situações de risco e
doenças fatais. Educar é assumir a responsabilidade de permitir aos filhos
viverem as situações de risco com defesas apropriadas. Cada nova doença social
exige uma vacina e tempo para prepará-la. “Pais atentos, presentes, orientadores
e comprometidos não evitarão o contato de seus filhos com a realidade da vida
que estes vivem, não os subtrairão do mundo que habitam.” (S. Sinay).
Porém, a ‘vacina’
não é a exposição precoce ao álcool, drogas, sexo, turmas,... Mas a inoculação
firme, paciente, amorosa e presencial de valores, espiritualidade, moral, recursos
que permitam ao jovem, em sua fase de desenvolvimento, adquirir resistência
para passar pelas situações de risco. Desta forma,
ele terá maior consciência dos perigos e compreenderá as possíveis
consequências de seus atos. Isto exige tempo e dedicação. Isto é
educação.
Os filhos
devem adquirir, através de seus pais, o conhecimento das manhas, artimanhas e
estratégias dos agentes infeciosos da sociedade, de suas armadilhas e ciladas,
saber como se comportam e camuflam, geralmente passando despercebidos ou
invisíveis. É muitas vezes impossível exterminá-los, assim como a violência. Mas
conhecer seus hábitos e habitat é fundamental para diminuir ou mesmo evitar
acidentes ou exposições fatais.
Ao sair e
se expor à vida, com todos os seus riscos inerentes, nossos filhos deverão
levar em suas mochilas princípios éticos, morais, espirituais, valores e uma
firme educação. Mais do que qualquer quinquilharia eletrônica ou objetos de
desejo consumista, é o que eles precisarão para agir, reagir, interagir e sobreviver
diante das situações limites pelas quais inevitavelmente passarão.
A vacina
age ativando a resposta imune do organismo contra determinado agente
infeccioso, quando exposto a ele.
A educação age
ativando a resposta ética e moral contra as situações de risco social, em momentos
de exposição.
Mas porque,
então, não se promove a “vacinação” em massa priorizando-se a educação de
qualidade em todos os níveis, combatendo os agentes que promovem as doenças
sociais? Porque a ignorância favorece a virulenta indústria da violência. A
população é intencional e sistematicamente enganada pelos que promovem a ignorância,
a miséria e o consumismo insano, cabresteada para combater a cura:
“- Tiros, gritaria,
engarrafamento de trânsito, comércio fechado, transporte público assaltado e
queimado, lampiões quebrados às pedradas, destruição de fachadas dos edifícios
públicos e privados, árvores derrubadas: o povo do Rio de Janeiro se revolta
contra o projeto de vacinação obrigatório proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz.” (Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904).
Há muita
resistência e interesses escusos contra a educação. Mas a revolução pode
começar dentro de casa.

