Post hoc ergo, propter hoc
Mentoris - Gustavo Brandão
Há algum tempo conversava com uma jovem, que vivia uma imensa dor. Seu pai acabara de falecer. Na noite anterior haviam discutido e ela fora dormir com as últimas palavras ditas para ele, “-quero que você suma da minha vida!”
Há algum tempo conversava com uma jovem, que vivia uma imensa dor. Seu pai acabara de falecer. Na noite anterior haviam discutido e ela fora dormir com as últimas palavras ditas para ele, “-quero que você suma da minha vida!”
No dia seguinte
ele seguiu para o trabalho bem cedo, como de costume. No caminho um bêbado
avançou o sinal e atingiu seu carro, matando-o na hora. Agora ela desabafava.
Cada lembrança de seu pai era agora consumida por suas últimas palavras, ditas
num momento de raiva e frustração.
Além da dor e do luto, a culpa a dominava.
“Depois disso,
portando por causa disso”,... ela
imaginava que seu desejo havia sentenciado seu pai.
“Depois disso,
portando por causa disso”, presumimos muitas vezes.
Existe uma
lógica falaciosa por conta de eventos que ocorrem sequencialmente que muitas vezes
nos aprisionam e nos fazem sofrer, sermos injustos ou mesmo cair em ilusões. Tendemos
a imaginar que se algo acontece logo após certo evento, numa linha do tempo, a
causa do segundo foi necessariamente o primeiro. Damos o nome de ‘correlação
coincidente’ a este raciocínio, muitas vezes ardiloso.
O erro pode
estar em desconsiderar outros fatores no desejo de encontrar rapidamente explicações
ou responsáveis por determinada situação ter acontecido ou não. Se feito de
maneira errada, o resultado poderá trazer falsos sentimentos (bons ou ruins) e
não amadureceremos em nossa jornada. Ou iremos responsabilizar levianamente
alguém ou alguma coisa. Ou ainda, satisfará um desejo oculto de nosso coração
que nem sempre condiz com a verdade, porém, satisfaz nossos padrões de pensamento.
Por exemplo,
numa demanda trabalhista o trabalhador culpa a empresa por sua saúde ter-se
deteriorado depois que ele começou a trabalhar, desejando estabelecer um nexo
causal. Porém, uma análise ou investigação pode apontar outros fatores em
outras áreas da vida do profissional, que nada tinham a ver com o ambiente de
trabalho, mas que podem ter levado aos seus problemas de saúde.
Nossas experiências
passadas muitas vezes são alinhadas com eventos do presente e tendemos a
raciocinar apenas numa relação de curto espaço de tempo de “causa-efeito.” Se fui
traído por um determinado profissional ou pessoa, posso ser tentado a afirmar
que ‘nenhum deles presta’ e assim passar a viver com uma premissa que vai me levar
a um medo genérico ou preconceito em relação àquela profissão ou pessoa. Posso
até acabar sabotando minhas relações presentes para poder dizer ao final,
melancolicamente, algo como “eu já sabia”, reforçando ciclicamente minhas
crenças.
Na vida e em
nossas Redes somos pessoas com boas e más experiências, com diferentes bagagens.
Buscamos construir um coletivo onde as oportunidades de cooperação e
colaboração são o desejo de todos. Eventualmente, trazemos nossos aprendizados pessoais
como contribuição para poder avançar em determinados assuntos ou para alertar sobre
situações e contextos já vivenciados. Em todas as situações, o diálogo deve nos
orientar.
Somos uma
unidade orgânica e sistêmica. Isso quer dizer que temos uma alta complexidade
no que diz respeito às expectativas, desejos, sonhos, tecitura de projetos, parcerias
e mesmo amizades e relacionamentos. Acima de todas as coisas, formamos um
ambiente de aprendizagem continuada, de troca e de contribuições, com humildade
e respeito. Damos inclusive o direito do outro não ser como eu sou, dentro dos
limites éticos que devem nortear nossa caminhada.
Com isso, em
primeiro lugar acolhemos o outro buscando seguir o exemplo universal do Mestre.
É na caminhada que conhecemos as pessoas e é no caminho que discípulos
tornam-se mestres.
Em tempo: aquela
jovem com quem conversava entendeu que a vida muitas vezes é assim, inexplicavelmente
trágica e imprecisa. O amor de seu pai estava muito além daquele
desentendimento.
Coisas ruins e
boas acontecem com pessoas boas e ruins. O controle é uma ilusão, o
determinismo é uma armadilha. Coisas ruins acontecem, mas não significam que
tenhamos responsabilidade nem definem quem somos. Da mesma forma, quando
acontecem coisas boas precisamos igualmente colocar tudo em perspectiva.
A jovem
conseguiu se perdoar, entender e descansar nas boas lembranças e nas
oportunidades que teve de compartilhar do amor de seu pai. Prosseguiu seu
caminho em paz.
A vida não é uma linha reta, viver não é preciso.

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