O verdadeiro poder é poder servir
Por volta de 930
a.C. os filósofos chineses da Dinastia Zhou introduziram a doutrina do “mandato
do céu” para explicar por que Zhou teve o direito de remover o poder do regime
anterior, declarando que o Imperador estava correto em suas ações, pois possuía
um missão divina: ouvir e servir seu povo. Porém, um imperador injusto poderia
ser deposto até mesmo por uma revolta ou golpe.
O conceito ‘pegou’
e se disseminou através dos séculos. Na Europa surgiu como o conceito de ‘direito
divino’ do rei ou imperador: o culto a Cesar (Império Romano), o Rei-Sol (Luís
XIV na França Medieval), são exemplos históricos. Com uma diferença: o rei ou
imperador era a divindade incontestável em suas ações, acima de qualquer poder
temporal, mesmo agindo de forma arrogante, patriarcal e despótica. Qualquer contestação
ao seu poder era uma revolta contra o próprio Deus.
Nas religiões
os deuses não devem ser contestados, assim como seus representantes na Terra. Sua
ira ou vontade necessita ser acalmada através de sistemas sacrificiais muitas
vezes cruéis e sem sentido, mas sob controle de uma classe sacerdotal aliada ao
poder temporal. Pagar pedágio para os sacerdotes era (ainda é?) uma imposição
para manter o poder.
No Ocidente, Constantino
desenvolveu o conceito católico do Papado a partir desses princípios. Os
Califados árabes surgiram com as mesmas prerrogativas, ambos perdurando até
hoje. A Reforma Protestante (500 anos em outubro!) não mudou muita coisa. Houve
uma reforma teológica, mas que passou ao largo da necessária reforma eclesial. Ela
fragmentou o poder religioso central, mas favoreceu o surgimento de diversos
feudos religiosos com seus papinhas. Resumidamente, a Reforma apenas disse que
o líder deveria ser ‘um servo de Deus’, conforme os ritos da própria
instituição que o ‘consagrava’.
No Brasil, cerca
de três mil anos depois do Imperador Zhou, outros imperadores e reis na forma de líderes
políticos e religiosos continuam seguindo os mesmos princípios. O discurso
Republicano é apenas isso – um discurso com aparência de democracia. Na verdade
a autoridade jamais admite ser contestada, pois todos se acham chamados não
pelo desafio de servir, mas pelo desejo do poder. O poder econômico, político,
jurídico e religioso continua sendo a motivação de falsos líderes, que se embaralham
de maneira promíscua para defenderem seus próprios interesses.
As castas do
poder queimam o mesmo incenso diante do mesmo altar. Assumem que seu mandato é um chamado divino, incorporando
a figura do ‘messias’ ou ‘salvador da pátria’. Declaram guerra contra a pobreza, contra o analfabetismo,
contra a corrupção, contra a inflação, contra o déficit público, contra a fome,
dentro de um imaginário medieval: cruzadas contra o mal que nada mais é do que
a incompetência de governantes ou sacerdotes anteriores que fizeram diferente. Desprezam
a história e seus conselheiros. Justificam suas facções. Toleram outros males “por
um bem maior”. Rezam sua doutrina ideológica sobre palanques e púlpitos. Exploram
e usam seu povo.
Na verdade,
tornaram-se marionetes do mal e de suas próprias vaidades, engordando seu ego com
amigos profissionais e igualmente interesseiros. Dizem que sua maior “virtude”
é não ouvir as pessoas que não pensam como eles. Alegram-se queimando seus
adversários no altar e excomungando seus opositores.
O caminho para
sair desta situação? Existem várias possibilidades, mas uma é fundamental e bem
conhecida: o serviço ao próximo como missão pública.
O verdadeiro
poder é poder servir.

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