Conversávamos
animadamente durante um jantar de casamento, três maridos. Cada um com seu
tempo dedicado à mesma mulher (32, 28 e 22 anos de casamento), sentimos que
éramos veteranos e ficamos à vontade para falar sobre a festa e vaticinar sobre
a vida alheia. Contrariando o senso comum, nem Padre nem Pastor, apenas o Juiz
de Paz. Aí ele correu um risco danado e se deu mal: em vez de cumprir seu papel
secular tentou dar uma mensagem religiosa sem falar de Deus. Em determinado
momento parecia uma máquina de costura descontrolada suturando idéias
desconexas. Aplausos de todos pelo final, a máquina silencia e a festa
continua.
Por conta
disso nos distraímos conversando sobre o que mantém um casamento: a paixão? O
amor? Os filhos? A boa vontade? Finanças? Interesses em comum? Isso nos motivou
a conversar sobre relacionamentos, paixão, amor, ética e perseverança no bom
caminho. O papo ficou muito agradável e foi adquirindo contornos de coisa séria
conversada com bom humor, uma ótima combinação.
As esposas
se distraíram com sua conversa e nós, estreitando o semicírculo, nos
aproximamos. Surgiram algumas frases e comentários bem interessantes envolvendo
casamento, política e trabalho. Estes temas caíram todos dentro do mesmo
balaio: a diferença está na atitude das pessoas diante dos desafios da vida.
Religião não é sinônimo de salvação, de casamento duradouro ou de ética nos
negócios.
Quero ver
quando a paixão acabar, disse um. Pois é, completei – aí eles deverão tomar uma
decisão, esquecer os votos ou amar um ao outro, pois o amor é o que o amor faz
de pois que acaba a paixão: gestos, atitudes e palavras, vencendo no dia a dia
suas tentações e desafios.
Bom, disse ainda
o outro amigo, então é preciso muita oração pra vencer a tentação... E ele
mesmo completou: mas antes é preciso ter uma atitude de vigilância. Vigiar vem
antes de rezar! E então ele contou uma história sobre uma tentativa de
corrupção que sofrera e, se não estivesse atento, teria caído numa cilada.
Enquanto falava fiquei absorto com o que ele dissera no início, como se diante
de uma revelação – ou insight. Vigiar e orar...
A festa
seguiu seu curso, diferentes e deliciosas entradas antes do grand finale da
janta. Os docinhos, pecados em pedaços. Abraços, promessas de ‘vamos nos encontrar
mais’, final de noite. Mas antes, os noivos apareceram para as formalidades, ‘quem
são vocês?’, perguntaram. Olhamos um para o outro, rimos, ‘somos apenas os
maridos das esposas que trabalham com sua mãe!’ Sinal dos tempos.
# O casamento
O casamento
é uma terra virgem (nem tanto hoje) adquirida por um casal. Ela tem fronteiras
e limites estabelecidos. Talvez, por não entenderem de casamento ou de limites,
alguns resolvam pular a cerca e explorar outros campos. Ou ainda, existem
aqueles sem terra que resolvem invadir campos alheios, gerando conflitos e
disputas muitas vezes insolúveis nesta vida. Por conta disso, muitas terras
ficam abandonadas.
Cabe à
paixão preparar a nova terra. A paixão é por natureza intensa, vibrante, uma
energia transformadora e motivadora. Mãos no arado, o casal segue adiante e não
olha mais para trás. Nada existe que possa resistir à sua força: retiram pedras
e tocos do caminho, contornam obstáculos, superam tempos difíceis, queimam com
a chama que arde no peito o mato, limpando o caminho.
Motivados por
um sonho comum, assumem compromissos e responsabilidades, registrando publicamente
seu campo. Ao dizerem o ‘sim’ um para o outro, dizem ‘não’ para todas as outras
possibilidades: sua palavra é sua honra, e o papel passado de mão em mão é a
testemunha silenciosa deste pacto. Juntas e apaixonadas vão trabalhando a
terra, deixando sulcos de esperança no solo.
# Amor & paixão
Campo
preparado, corpos suados e cansados, sorriso nos lábios: final do dia, o último
sulco de terra foi arado, a paixão finalmente começa a encontrar seu descanso,
os dias passam. Aos poucos, pequenos e delicados detalhes são engolidos um a um
pela sucuri da rotina, insaciável. Sorrateiramente ela desliza pela casa
engolindo sentimentos, prioridades, palavras e o tempo do casal. Acaba se
aninhando na cama do casal, bem entre os dois, que passam a abraçá-la ao
dormirem. Finalmente ela engole a paixão, dá um arroto de boa noite e dorme seu
longo sono. Será despertada com os filhos, que também serão engolidos sem
maiores cerimônias.
O que
aconteceu? A paixão foi consumida, desapareceu. O corpo e a mente, cansados,
pedem naturalmente um descanso. É impossível viver sempre apaixonado, aquela
energia toda, o tempo todo consumindo as forças! Mas e agora? O campo todo
arado, a terra pronta, a rotina estabelecida, desejada ou não, necessária ou
não, mas definitivamente instalada e acomodada na vida dos dois. Sinais de mato
e problemas vão surgindo.
Aos poucos
o casal percebe que alguma coisa precisa ser feita, desafios e decisões surgem
no horizonte. Eles conversam, discutem, brigam... Se olharem para trás verão a
possibilidade de renovar a emoção e o sentimento da paixão do passado, da
adrenalina da conquista. Sairão em busca de outros campos, desejando reviver um
passado que não existe mais. A renúncia faz parte da maturidade. Como
transformar a paixão – ou o que dela sobrou – em amor? É preciso dar um jeito,
fazer alguma coisa. Ou, como criança que cansou de seu brinquedo, sair em busca
de outra diversão. Mas um dia mesmo a criança mais teimosa vai ter que
amadurecer. Quanto mais resistir, mais vai sofrer.
Fazer
alguma coisa ou dar um jeito não significa encontrar um novo sentimento, mas
decidir dar um passo alem, transformar o sentimento atual tomando decisões e
assumindo as consequências: dar o passo adiante da paixão, querer aprender o
caminho do amor! O amor “Que não
seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”
não é amor, é paixão. A paixão é apenas o primeiro passo em um relacionamento.
A chama
serve pra queimar muita energia e mato, mas e depois? A paixão deve ser lembrada
e reverenciada, acolhida e bem querida, mas depois precisa ser transformada em
algo que dure enquanto dure a vida. Descobrir o fogo pode ser obra do acaso ou
do destino, mas aprender a dominá-lo é uma arte intencional. O fogo faz parte
do amor, mas não é o amor. Ele convida para o aconchego e para o calor e, nessas
horas, lembrar-se do campo virgem e da terra arada é celebrar a paixão mediada
pelo amor.
A paixão
prepara a terra, o amor semeia, cuida e colhe seus frutos ao longo
dos anos. No casamento, na terra da promessa, a vida floresce mesmo enfrentando
as maiores adversidades. Cada semente começa com uma mesma letra, “D”, e
termina com “A”: decisão e ação.
Nos relacionamentos
a desculpa da “alma-gêmea” que se encontra depois de casado é apenas uma
racionalização infantil de gente grande mimada, sempre à procura de um
brinquedo novo. O amor não surge “de repente”, do nada, ele é cultivado
intencionalmente pelas pessoas. O amor é o produto da paixão amadurecida.
Ninguém
casa por amor – e aí está uma baita confusão, pois confundimos muitos outros
sentimentos legítimos com o amor. Não é o amor que é cego, é a paixão e o
desejo. O amor você decide aprender depois. O amor é decisão e não sentimento. A
paixão é energia pura, rapadura e açúcar! O amor é fermentado, destilado, gota
a gota, dia a dia...
O primeiro e
verdadeiro gesto de amor não tem nada a ver com abrir portas, pagar a conta,
comprar um presente, falar palavras bonitas, sexo ou se enfeitar: é decidir honrar
e manter a palavra dada num momento de paixão. As sementes guardadas enquanto a
terra era preparada pela paixão agora podem ser lançadas ao solo. Elas vão germinando
e crescendo através de pequenas ações de cuidado até darem seus frutos, até na
velhice. Se abandonarmos o terreno arado, se abandonarmos o cuidado do campo,
vai dar m.... mato!
# Vigiar & Orar
Acontece
com todos: somos eventualmente tentados por uma linda mulher ou um belo homem,
ou por alguma outra coisa que nos seduz. Nas horas seguintes teremos que tomar
decisões significativas: seguir o caminho do prazer ou do desejo, ou, dizer
não, obrigado e manter-se dentro dos limites da promessa, da palavra empenhada,
do caráter e da ética. O caráter é a crença em ação. Safadas são as pessoas de
oração que não agem de acordo com seus valores.
É preciso
estar atento, vigilante, as ciladas são muitas e sutis. Na hora da tentação,
como agir? Existem apenas dois caminhos, independente do tamanho ou da
complexidade da situação: o certo ou o errado. Dois caminhos que darão frutos
muito diferentes. Cada passo dado numa direção ou noutra trará suas
consequências. Vale lembrar que uma palavra dada refere-se não apenas à
fidelidade numa união, mas a situações de trabalho, esportes, lazer, contratos,
da vida como um todo, onde se apresentam muitas oportunidades para a mentira,
para o jeitinho, para a malandragem de querer levar vantagem às custas de alguém.
Quando nossas crenças afetam outras pessoas, tornam-se questões éticas.
Fomos
ensinados desde pequenos: “-Vigiem e orem para que não caiam em tentação.” Compreendemos
bem a dimensão da oração, nossa devoção a Deus em comunhão e intimidade. Se não
acreditamos em Deus, torcemos para que um conjunto de normas e valores seja estabelecido:
isso também é um tipo de fé. Mas de nada adianta a oração ou o desejo sem uma
atitude de atenção e cuidado. Jesus estava no Getsêmani com alguns amigos,
orando. Pedro foi acordado com ele falando ao seu ouvido: “nem uma horinha
vocês puderam vigiar comigo?” Quem não consegue ficar alerta na escuridão não
percebe a luz chegando. O sentinela que dorme no posto não percebe o inimigo se
aproximando.
Orar é
estar com Deus em comunhão, vigiar é a oração em ação. Posso orar sozinho, mas
a vigília é comunitária: eu oro, nós vigiamos. No casamento, a vigília faz a
diferença.
Oração é entrega
e rendição diante de Deus; vigilância é atitude diante das pessoas. Orar é amar
a Deus sobre todas as coisas; vigiar é amar ao próximo como a si mesmo: o que
desejo para ele, desejo para mim. Orar sem agir, ou agir sem orar são ações de
alto risco. A oração adquire significância quando se compreende o que está
acontecendo. Orar é discernir por que se vigia. Vigiar é a atitude da
sentinela, o uso da razão, do poder de observação, de crítica e proatividade. É
análise de conjuntura, de cenários reais e possíveis, de atenção a movimentos e
sons suspeitos, interpretando o contexto para poder tomar a melhor decisão.
Na oração
temos nossa mente disciplinada e focada em Deus pelo Espírito. Na vigília
usamos os órgãos dos sentidos para perceber, refletir e agir com sabedoria:
olhos, ouvidos, pele, olfato, tudo ao mesmo tempo sendo processado pela mente,
sendo elaborado, adquirindo significado. Atenção e alerta, estímulo e resposta,
prontidão para a atitude adequada conforme cada situação. Se estiver atento, posso
dar conta da rotina antes que ela cresça e sufoque o casamento. Quem vigia
percebe os indicadores de sua presença.
Do grego “gregoréo”, a palavra “vigiar” remete à
Grécia antiga, onde os romanos em suas conquistas encontraram a primeira
cidade-estado habitada pelos ‘grekkoi’. Eram guerreiros de espírito alerta. O
conjunto de estados da região era conhecido como Hélade e eles se chamavam
Helenos. Associar os “grekkoi” à uma atitude de “alerta” deu origem à palavra latina
‘vigilius’. No Século VII o Papa Gregório (vigilante) I introduziu uma série de
músicas especiais para as horas de vigília, que depois ficaram conhecidas como
Canto Gregoriano.
A atitude
de vigília é a capacidade de estar alerta contra os inimigos. Simbolicamente, a
queda do homem foi devido à falta de vigilância do primeiro casal. Eles viviam
em constante comunhão com Deus no Jardim do Éden. Mas não vigiaram, caíram numa
cilada, seduzidos pela primeira sucuri existencial. Cansados de Deus, cansados
da rotina de cuidar de seu campo, onde também estava o jardim, resolveram
experimentar outras emoções.
No
Getsêmani Jesus redime a história da humanidade em outro jardim, o Jardim de
Oração. Ali ele tomou a decisão de pagar o preço e tomar o cálice da coerência.
Viveu com paixão a sua missão, e morreu conscientemente pelo que acreditava.
Por isso ele alertou Pedro e seus amigos: vigiem e orem! O espírito está
pronto, mas a mente precisa estar alerta contra as ciladas! Habacuque, outro
profeta do passado, fez a seguinte declaração diante dos desafios pelos quais
passava: “Ficarei no meu posto de sentinela e
tomarei posição sobre a muralha (vigiar); aguardarei para ver o que Deus me dirá” (oração).
Onde estão os
postos de vigia no casamento? Quem está alerta? Certa vez visitei o morro do
Cindacta em Urubici, SC. Estava um frio medonho, cheguei junto à guarita da
Aeronáutica e não vi ninguém. Filho de militar que sou, sabia que tinha alguma
coisa errada: guarita abandonada? Problema sério. Liguei a filmadora fui
entrando e chamando... Encontrei os soldados dormindo, ouvia seus roncos! Se acordasse
os caras, poderiam se assustar, atirar e depois perguntar. Melhor sair de
fininho.
Casamentos
acabam. Por que? Vários motivos. Arrisco dizer que o principal é devido ao
abandono dos postos de vigia, da atitude de alerta e atenção mútuas, levando a
riscos desnecessários e ciladas. Um adultério, uma mentira, provocações, ciúmes
doentios, inveja, indelicadeza, abandonar o bem querer ou o querer bem,
melindres de crianças mimadas, egoísmo (“meus direitos!”), preguiça de fazer o
bem, e por aí vai. No dia a dia a negligência das pequenas ações, a decisão de
não cuidar, levam a uma situação típica: grandes arapucas sendo armadas.
Aí um dia
as pessoas acordam e dizem: “o amor acabou”! Acabou nada, foi morto. A paixão
se foi e o amor não amadureceu, morreu nas mãos de algum inimigo, de pessoas
negligentes. A semente chegou a crescer, promessa de linda árvore no jardim, gostosos
frutos, mas depois foi abandonada. O espaço é dado para as ciladas. A responsabilidade
é individual, apesar de sempre se tentar jogar a culpa no outro ou em Deus.
Apesar das
atividades religiosas e das rezas durante a semana, os desencontros se sucedem.
Um relacionamento se constrói com atitudes e não apenas com orações.
Oportunidade
de trair o cônjuge? Apenas diga não, perceba a cilada bajulando sua vaidade.
Oportunidade de uma fraude? Diga não, cuidado com atalhos, não abandone
seu posto.
Vigie sua
vida. Vigie seus hábitos. Vigie sua boca. Vigie seus olhos. Vigie suas mãos.
Vigie seu coração. Vigie sua mente. Vigie se sua devoção a Deus não se tornou
uma desculpa para abandonar seu lar. Seja o senhor de seu destino. Pare, olhe, escute, desperte: o inimigo
está ao lado, permaneça firme em sua posição. Seja proativo e não deixe a rotina crescer e sufocar a
semente do amor plantada com tanta paixão!


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