Ver o mundo num grão de areia, o paraíso numa flor silvestre, ter o infinito na palma da mão e a eternidade num momento. W. Blake
Olá, meu amigo!
No Natal, à hora da Ceia, mamãe colocava um livro debaixo do prato de cada um dos seis filhos. "Sítio do Picapau Amarelo", (Monteiro Lobato, 17 volumes capa dura, cor vermelha) e "Contos da Carochinha" (11 volumes, Livraria Quaresma, 1959 - RJ), foram meus primeiros amigos - aprendi a ler, literalmente, com eles. 'Éramos Seis' não foi apenas o livro de Dupré (D. Lola e sua família), mas também a realidade de seis irmãos e irmãs que foram juntando livros ao longo da vida, pegando amor à leitura, aprendendo a partilhar o tesouro das letras.
Após o Natal tínhamos que ler devagar, saboreando as páginas, esperando o irmão acabar sua leitura e poder então trocar os livros. Ou, na calada da noite, surripiávamos obras alheias escondendo-as no banheiro para usufruto posterior, geralmente causando a ira de quem aguardava a vez – de usar o sanitário, não o livro. Muito interessante como livros e banheiro combinavam: emoções e fantasias, tudo junto e misturado. A marca da tampa da privada aparecendo na parte de trás das coxas denunciava o leitor distraído: passara dos limites! É claro que ninguém avisava ninguém e deixávamos para a rua as gozações e imaginação da molecada pela demora no trono.
Tanto a literatura brasileira quanto versões traduzidas da norte americana e inglesa foram enchendo nossas prateleiras e cabeças, povoando nossa imaginação. Mark Twain, Dickens, Lobatos, Machados, Josés, Arianos, Agathas, Cecílias, Marias, Manueis, Euclides, Vernes e tantos outros. Biografias, histórias de batalhas e seus heróis, romance, poesia, contos, narrativas bíblicas e livros devocionais. Tecnirama, Conhecer, enciclopédias, Círculo do Livro, Seleções Condensadas de Livros do Reader's Digest, e outros mais ou menos nobres, mais ou menos ilustrados, mais ou menos lidos e folheados, mas sempre ao alcance das mãos.
Em tempos onde a Internet era ainda ficção, para as horas de chuva e tédio restavam as brincadeiras de correria dentro de casa e os “agarra-agarra”, algazarras que acabavam sempre com alguém chorando e uma bronca generalizada. Da bronca, lá vinha o “castigo”, o pai com cara de poucos amigos: "-pega lá um livro e vá sossegar no seu canto!"
O 'canto' de cada um, numa casa de seis irmãos, era a cama onde só era permitido seu proprietário e o nosso labrador preto. Ele veio de navio da Inglaterra até o Rio de Janeiro. O Burly, apesar de inglês tinha sangue escocês, amigo fácil e fiel. Junto com ele veio o Sky, um Dálmata esnobe e cheio de classe como só um inglês sabe ser. Quando irritado, sentava virado para a parede e só saía de lá bom tempo depois, como só um inglês pode fazer. Aliás, diz a lenda que o primeiro registro de um Labrador em Brasília foi o nosso: Red Game Burly, resta conferir.
Na adolescência, digno de nota era um clássico que fazia misteriosas aparições em nossas camas: “O Corpo Humano”, de Fritz Kahn. Havia também um outro da mesma linha, nome esquecido, mas desenhos bem lembrados. Geralmente eram devolvidos no banheiro, sem comentários.
Crescemos colecionando e fazendo histórias. Hoje, colecionamos lembranças e ainda rabiscamos a vida nas páginas que nos restam. Reler um bom livro é como visitar aquele parente querido há muito tempo não visto. Recordamos aventuras, casos, emoções. Muitas vezes, lembranças paralelas são trazidas e enchem a sala com um cheirinho de saudade, como de bolinhos de chuva com canela das tardes chuvosas. Outras vezes, não suportamos as palavras e deixamos nosso amigo falando sozinho, dezenas de línguas agitadas ao vento. Alguns livros, assim como pessoas, simplesmente perdem o sentido e então os abandonamos às traças, destino final para quem nos iludiu com vãs palavras ou falsas promessas.
Ao reler ressignificamos aprendizados e lições, reforçamos idéias, consolados por encontrar alguém que “pensa como eu”! Cheiramos páginas amareladas sentindo o bafo do tempo e odores do passado, sorrisinho no canto dos lábios. Olhos atentos chegam a ouvir sons esquecidos nas prateleiras menos acessadas da memória. Aquela pequena mancha na página denuncia a emoção que escorreu pela face do leitor, selando uma amizade definitiva.
O sonho do homem para construir a máquina do tempo já foi concretizado, as pessoas apenas não se dão conta. Com os livros visitamos o passado e seus personagens reais ou imaginários, testemunhando seus feitos, romances, conquistas e tragédias: com eles vencemos gigantes, conquistamos mundos, salvamos pessoas em perigo, vivemos uma grande paixão, descobrimos uma cura, voamos no primeiro avião, ganhamos guerras, produzimos aquela peça e solucionamos os maiores mistérios.
A ficção nos lança para o futuro com a força da imaginação e, perplexos, fazemos coisas fantásticas, com um certo ar de tédio, como falar com as pessoas e ver suas imagens em um aparelho que cabe na palma da mão, ou viver em um mundo sem escolas onde cada um é protagonista de seu conhecimento e vive em paz com seu semelhante.
Obrigado, velho amigo, por tantas histórias, por tantas lembranças e pela esperança renovada em cada página!
Heim? O que é que você está perguntando? Quem seria meu amigo preferido? Difícil... são tantos, mas OK, posso dizer pelo menos um: paradoxalmente, é o cara que mais transformou e tocou vidas sem escrever nada. Pensando bem, a única coisa que escreveu foram apenas algumas palavras na areia, que quem consegue ler guarda para si. Usou a história como papel e a vida como pena. Viver, ele diz, é como pegar uma folha em branco e começar a correr o risco, sem direito a usar a borracha.

Muito boa a leitura! Agora vou imprimir pra reler no banheiro! Hehehehehh...
ResponderExcluirParabens brother, muito bom mesmo, puxa, que legal!!!
ResponderExcluirBeijos,
Carlos Brandao
Fiquei emocionada !
ResponderExcluirT.S.Eliot nos fala de uma múltipla possibilidade, de uma disposição a não se apegar às simplicidades ou às verdades aparentemente finais e exclusivas: "É no lar que se começa, a medida que crescemos; o mundo se torna estrangeiro,o padrão mais complicado...Devemos seguir avançando,rumo a outra intensidade, por uma nova união, uma comunhão mais profunda(...)Beijos,mãe