1.
Certa
vez, um homem saiu a caminhar pela cidade. Caminhava cantando canções que
aqueciam o coração e servindo o povo com alegria. Proclamava um reino de paz e justiça e todos
gostavam dele. Ele falava o que fazia e fazia o que falava.
2.
Enquanto
caminhava, dois amigos passaram a seguir seus passos. Porém, estes amigos o
seguiram com objetivos diferentes.
3.
Assim,
para cada gesto de amor oferecido pelo homem, duas pessoas eram discriminadas por seus amigos. Para cada dinheiro doado,
duas pessoas eram espoliadas. Para cada bênção ministrada, duas pessoas eram amaldiçoadas.
Para cada palavra de consolo, duas ameaças eram feitas. Para cada flor
plantada, duas eram pisadas. Para cada criança abraçada, duas eram abusadas. Para
cada alma perdoada e acolhida, duas eram discriminadas e excluídas. Para cada
mão estendida, duas pessoas eram empurradas para fora.
4.
Para
cada gesto de paz e justiça, duas vezes mais ações de discórdia e exploração
eram praticadas. Para cada quilo de alimento doado, dois quilos de lixo eram jogados
nas ruas.
5.
No
final de seu caminho, o homem olhou para trás e seu coração encheu-se de dor.
De tudo que havia feito de bom, havia duas vezes mais problemas causados em seu
nome. Tristemente reconheceu que sempre haveriam dois ladrões ao seu lado.
Conversava
com um amigo sobre algumas atividades cristãs em Curitiba quando ele
compartilhou uma informação acerca da “Marcha Para Jesus” de 2012. Animado, informou
que uma tonelada de alimentos havia sido recolhida durante o evento. Porém,
com certa tristeza no olhar, disse que ao final da marcha um pequeno grupo percorreu
o trajeto feito e recolheu duas toneladas de lixo.
Fiquei perplexo.
Não pude deixar de lembrar as palavras do Mestre Jesus: “muitos serão chamados,
mas poucos escolhidos”. Pensando no testemunho geral dos evangélicos na
sociedade, uma frase irônica surgiu em minha mente: “muito lixo será espalhado,
mas pouco recolhido”. Para cada notícia boa, existe o dobro (pelo menos) de
escândalo na sociedade.
Sintomaticamente,
percebemos que a capacidade de produção de lixo pelo povo evangélico tem sido
muito maior que a sua capacidade de fazer coisas boas. Sei que isto não é
exclusividade deste povo, mas nossa responsabilidade é diretamente proporcional
aos valores que defendemos.
O lógico
seria ao menos a marcha sem lixo; o ideal seria exatamente o contrário: a transformação
do espaço público com boas obras, em vez de deixa-lo cada vez mais cheio de
lixo. Mas como exigir lógica de líderes que apenas pensam na promoção pessoal e
demonstração de força para uso político? Seus carros de som equivalem-se a
altares a Mamon, sendo os pastores midiáticos seus profetas. A verdade é
sacrificada em nome do relativismo gospel.
Certa vez
escrevi um comentário sobre a “Marcha para Jesus”. Esta
marcha tem sido um testemunho que fala mais da falsa comunhão cristã do que qualquer
evidência de unidade. Aparentando união na diversidade, na verdade mostra
exatamente o contrário: as múltiplas faces de igrejas dominadas por vaidades
pessoais, onde cada novo líder pastoreia seu rebanho feudal. Quem marcha promove o Jesus Gospel, o Jesus
pop consumista, a teologia que prospera líderes e empobrece associados.
Jesus é o
cabeça da igreja. Porém, numa metáfora mitológica, hoje esta cabeça está cheia
de víboras que competem entre si, mordendo-se e envenenando umas às outras. A
igreja institucionalizada tornou-se como Medusa, paralisando todos os que dela
se aproximam. João Batista e Jesus bem qualificaram a liderança desta igreja,
chamando-os de raça de víboras. Pelos seus frutos serão conhecidos, e não
apenas por suas palavras.
O lixo
deixado para trás é um exemplo constrangedor que põe o dedo na ferida do povo
evangélico: suas palavras não têm sido confirmadas por sua conduta. O crescente
sentimento de ira e indignação contra a liderança evangélica atual tem sido um
indicador que aponta para a doença do povo evangélico. Esta ira não é por causa
do conteúdo da mensagem, mas devido ao lixo espalhado diariamente pelo caminho.
Para
piorar, em vez de olhar para si e suas instituições e fazerem uma autocrítica, a
liderança usa a malandragem e capitaliza a indignação externa, empurrando a
igreja numa cruzada medieval contra qualquer adversário. Mesmo execrados pela
opinião pública aumentam dia a dia seu eleitorado, servindo-se da alienação e
comodismo de quem elege terceiros para ser sua consciência.
Com típico
comportamento sebastianista, líderes messiânicos posam como salvadores da
igreja. Com declarações apocalípticas em nome da família, da ética e da
moralidade desejam apenas aumentar seu domínio. Este discurso interno somente engana
quem também é seduzido pela mesma vaidade: o poder.
Melhor
seria se o povo de Deus ficasse em casa, em silêncio e oração, saindo apenas
para testemunhar com atitudes a verdade que alega estar em seu coração. Se
assim fosse, quando um evangélico assumisse qualquer cargo público seria
celebrado com boas vindas e não repelido com tanta veemência devido ao rastro
de lixo de seu passado.
A palavra
do cristão contra seus opositores, conforme o Apóstolo Pedro exorta, deve ser
feita com mansidão e amor: sem discursos irados, incitação ao ódio, à violência
e a qualquer tipo de guerra santa. Se algum cristão sofrer, que não seja devido
a serem assassinos, ladrões, criminosos, fofoqueiros e oportunistas – mas
devido à prática da solidariedade em meio a uma geração perversa.
O desgaste
de forças, energia e recursos para explicar que o verdadeiro Evangelho não
deixa lixo por onde passa tem sido em vão. O lixo produzido se acumula dia a
dia, demonstrando que nossa prática está totalmente equivocada e testemunhando muito
mais alto que qualquer pregação ou discurso.
Para cada boa
ação que os evangélicos fazem, duas vezes mais problemas eles mesmos causam,
deixando a população confusa e sem esperança, além do mau cheiro no ar.
O
enriquecimento ilícito através da lesiva teologia da prosperidade, os recursos
investidos cada vez mais em estruturas e megatemplos, a indiferença social da
maior parte da comunidade cristã, a exclusão dos diferentes, a corrupção e
briga entre facções evangélicas, e tantas outras práticas, são indicadores do
lixo que tem sido espalhado pelo caminho.
Se produzimos
lixo é porque deixamos de lado nossa missão e nos tornamos discípulos de Belzebu,
o Senhor das Moscas. As moscas vivem do lixo e em benefício próprio, se
alimentando da morte.
A verdadeira
igreja é desafiada não a produzir mais lixo, mas a fazer compostagem,
fertilizando a sociedade. Jesus e seus discípulos são como as minhocas: sem
perder sua integridade, transformam tudo que tocam em algo novo e orgânico, gerando
substrato para novas formas de vida. A igreja é a comunidade de um povo que
caminha em comunhão e celebra uma nova história.
Chega de
lixo pelo caminho. Que a igreja deixe apenas os frutos do amor e da
solidariedade por onde passe.

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