A alucinada temporada natalina ganhou um
tremendo impulso com a popularização em escala global da “Black-Friday”. Este dia
foi estrategicamente colocado entre o Dia de Ações de Graça (um feriado nos
Estados Unidos), e o primeiro domingo do Advento, criando definitivamente outro
sentimento para o que deveria ser um período de paz e preparação para o Natal.
Estamos perdidos.
Mesmo sendo coisa de três anos no Brasil, a Black
Friday existe há muito tempo na terra do Tio Sam. Foi por volta da metade da
década de 1970 que realmente se popularizou, marcando o início da temporada de caça
aos presentes de natal.
A terra do Tio Sam é realmente pródiga em
transformar boas ideias em produtos de consumo. Tudo está venda e a discussão
passa a ser apenas o preço. Desta forma, aproveitando o clima sentimental entre
o dia de ações de graça e o natal, a Black Friday inaugura a temporada de
correrias para as compras de natal. A expectativa foi invertida. Mais do que
nunca, gratidão e o amor tornaram-se produtos precificados conforme a culpa de
cada pessoa, sendo que as grandes questões da humanidade – ou pelo menos as do
indivíduo - ficam resolvidas com quinquilharias.
Da sexta-feira negra até o Natal, serão
dias de correria, consumo e verdadeira ansiedade, mesmo para quem não comemora
o Natal cristão, seja lá por que motivo for. Nos Estados Unidos, a chatíssima
era do politicamente correto faz muitas pessoas desejarem umas às outras “Happy
Holidays”, em vez do tradicional “Merry Christmas”. Mal sabem elas que acabam
desejando literalmente um “feliz dia santo”, e o tiro sai pela culatra pela
ignorância pagã.
De qualquer forma, mesmo o tradicional
‘feliz Natal’ já não tem o seu sentido original, pois o que era para ser a
celebração de um período foi reduzido a comes & bebes com alguns presentes
em um dia apenas.
Tudo deve estar comprado, empacotado,
embrulhado e pronto para ser entregue e engolido até o dia 25 de dezembro. À
medida que passam os dias e se aproxima o clímax natalino, o prazo final,
cresce a ansiedade e o stress. Papais-noéis materializados nas fachadas,
pulando a cerca, saltando de paraquedas, pendurados no teto, apenas aumentam a
pressão: compras! Sonhos e desejos de consumo substituem um sentimento que
deveria ser de paz, reconciliação e alegria.
Historicamente, o natal nunca foi o foco do
cristianismo e apenas vários séculos depois do nascimento de Cristo as coisas
começaram a mudar. A Páscoa sempre foi a festa central por séculos, onde a
Ressurreição do Filho de Deus era o verdadeiro motivo de celebração. Afinal,
todas as religiões têm o seu natalício, mas apenas o Cristianismo veio com a
proposta da ressurreição, algo que a própria Bíblia reconhece que é uma
mensagem louca para quem não crê.
Vale a pena dizer que não tenho nada contra
todos os símbolos tradicionais do Natal, inclusive o bom velhinho, o pinheirinho
e a neve nos trópicos, muito pelo contrário: em minha família, estas tradições contribuíram
muito para fazer a alegria da criançada. E hoje, netos e netas se deliciam com
um natal de arregalar os olhos, lamber os beiços e sorrir de alegria! Imagens,
sons e cheiros que foram eternizados em meio à leitura bíblica do nascimento de
Cristo. Os símbolos do Natal, devidamente colocados, contribuem para a magia
desta época, para o encantando da criança que temos em nós e da criançada de
todos os tempos.
Porém, poemas, canções, enfeites,
estratégias de marketing, tudo aos poucos foi sendo usado para criar o “clima” artificial
de Natal que, na verdade, tornou-se basicamente comercial. Um dos ícones do
Natal, o fofo e rechonchudo Bom Velhinho da Coca-Cola, foi a melhor campanha de
todos os tempos para colar o Natal à sedução do mercado. Mas tudo isso passou
da conta, está se tornando insuportável.
Cada vez mais me sinto como o peru
escolhido para a ceia, dia a dia forçado a engolir, via marketing de gosto
duvidoso, todo tipo de produtos, sendo lentamente preparado para o abate no
altar do deus mercado que, na Bíblia, foi identificado como Mamom. A seu
respeito o menino da manjedoura que se tornou o Cristo exortou: ninguém pode
servir a dois senhores. Mas parece que no Natal tudo pode, assim como no
carnaval. Estas duas festas possuem hoje muito mais pontos em comum do que
imaginamos.
Até mesmo as igrejas cristãs, salvo as
exceções da regra, entraram e competem comercialmente com a sociedade, amortizando
a culpa através das indulgências modernas: exploração do dízimo, das ofertas e de
mão de obra, chamando seus funcionários de “missionários”, que devem sofrer
muito por Cristo e vender a placa da igreja com seu sangue. Ao final,
escravizam ainda mais o crente usando artifícios que o marketing usa: a salvação,
a prosperidade e a felicidade são alcançadas através de suaves prestações. Mas
ninguém deseja prestar atenção nos juros embutidos nestes produtos, neste caso,
uma teologia focada na grana do fiel e não no seu caráter.
Desta forma, assim como o Natal perdeu para
Papai Noel, o Papai Noel de outrora também parece ter perdido sua força. O que
nos resta?
No Brasil imaginei o provável sucessor do
Papai Noel: para simbolizar o Natal brasileiro, o Saci-Pererê com
seu indefectível shorts e gorrinho vermelho, surrupiados do bom velhinho que
se aposentou definitivamente após cumprir sua missão. E o Saci ainda tem um
apelo, já que é um molequinho: pode também substituir o menino Jesus, já que
ele não sai da manjedoura e se recusa a ocupar os corações dos homens o resto
do ano.
Viva
o Saci Noel!
Esta figura mítica é brincalhona, bem
humorada e encarna bem o ideal do “eu sou brasileiro, não desisto nunca”. Afrodescendente
e deficiente, saiu do anonimato para a história. Foi imortalizado por Monteiro
Lobato. Conseguiu superar obstáculos com maestria e criatividade, encontrando
seu espaço em um país onde importado é sinônimo de qualidade, mesmo que seja
uma porcaria.
Porém, a grande marca de sua personalidade
é seu espírito irreverente, sendo por muitos considerado o típico símbolo do “brasileiro
malandro”, mais do que o importado (viu só?) José Carioca, o papagaio de olhos
azuis que tipificou a malandragem.
O brasileiro é geralmente assim e cada dia parece
reforçar o estereótipo: se tem muvuca em algum lugar, pode contar, lá estão eles
(todos nós) no meio da fuzarca! Quem viaja para o exterior sabe, quando encontram
em qualquer lugar representantes da pátria amada, idolatrada, salve, salve,
fica fácil de identificar a nacionalidade dos brazucas. Nesses momentos, os
antes desconhecidos se enturmam tornando-se íntimos de uma hora para outra, em
meio a fortes abraços e beijos, como se a distância da pátria criasse vínculos
mágicos.
O gringo que eventualmente está
acompanhando alguém da turma pergunta, admirado, se são velhos amigos. E fica
mais perplexo ainda quando ouve a resposta, não, nos conhecemos agora! Assim
somos, como um grupo de araras que se encontra, fazendo a alegria de uns e a
vergonha de outros, mais dados à empáfia anglo-saxônica.
O Saci é o brasileiro sem freios. Atazana a
vida de peões no campo ou de velhas cozinheiras em seu dia a dia. Em casa,
esconde utensílios, roupas, acessórios e ferramentas: cadê o martelo? Sumiu o
par da meia? Foi o Saci, e ele sai correndo dando risadas. Sua carapuça
vermelha é a fonte de seu poder mágico e dissimulação. Coisa difícil é pegar um
Saci, mas o Tio Barnabé ensinou direitinho para o Pedrinho e Narizinho:
- Pega uma peneira cruzeta, daquelas que
tem duas tiras mais grossas de palha cruzadas no fundo, espera um dia de vento e
quando vir um redemoinho jogue a peneira em cima. O Saci ficará preso. Em seguida,
coloca com cuidado uma garrafa escura debaixo da peneira e espera um minutinho,
ele vai se esconder dentro da garrafa! Com cuidado, tire rapidamente a garrafa
e fecha com uma rolha que tenha uma cruz riscada, que é para ele não sair. E, muito
importante, tira o capuz do Saci! Sem a carapuça, ele perde seu poder.
Cruz na rolha, capuz escondido, ele fica
sob controle. Mas alguma coisa acontece no final de ano. Saci é Saci e de
alguma forma ele se livra da garrafa ou alguém deliberadamente solta o danado,
que parece estar ocupar todos os espaços ao mesmo tempo! Lá vai ele, fazendo suas
artes, enganando, aprontando e encarnando em muitas pessoas.
O espírito do natal foi substituído pelo
espírito do Saci.
Ele vai fazendo todo mundo de bobo: ilude
com a ideia de que “presentes simbolizam amor”, some com o dinheirinho extra do
décimo terceiro salário (deveria ser usado para quitar ou amortizar dívidas?), engana
devedores oferecendo mais crédito na praça, depois os credores que deram o
crédito levam o calote, transforma o já difícil trânsito num inferno, gera
sentimento de culpa por mais uma vez ter torrado o dinheiro, lota igrejas e
teatros tropicais com espetáculos de inverno, irrita a não poder mais os
pedestres com musiquinhas de natal, delen
dendén, delen dendén, delen dendén, dendénnnnn.... insuportáveis harpas!
E o Saci continua suas peraltices, faz
pessoas beberem além da conta, traveste cidadãos sisudos em ridículos
papais-noéis bonachões de barrigas caídas, aumenta os preços e depois oferece
descontos imperdíveis para tudo aquilo que na verdade ninguém realmente
precisa, invade as cidades com decorações exageradas ou sem sentido, que se
tornam símbolo de ostentação para muitos, faz as pessoas prometerem coisas que
jamais cumprirão e tantas outras coisas que parece que o poder de sua carapuça
não tem fim.
Em meio a tudo isso o verdadeiro espírito
do Natal passa quase despercebido. É cada vez mais substituído pelo consumismo
numa época que era para ser de reflexão e harmonia na intimidade do lar. Tornou,
afinal, a data em um espetáculo circense, onde a lona desce sobre cidades
inteiras tomadas pelo sentimento de consumo e desperdício.
Diante desta realidade, algumas coisas
podem ser feitas. Começando com o maior apelo em nossa sociedade, o econômico:
Não se deixe levar pela pressão antes do
natal. Poupe seu dinheiro, programe-se com a família para fazer suas compras
depois do dia 25! Deseja comprar presentes? OK, sem problemas, mas pensa
comigo: se o comércio entra em liquidação após o dia 25 de dezembro, com
descontos muito bons, que tal comprar muito mais pelo custo que você teria se
gastasse antes do natal? Faz sentido? E com uma vantagem muito boa: sem aquele
tumulto todo nas ruas, shoppings, lojas. Aproveita para passear com a família
gastando bem menos!
Mas temos outros bons motivos também.
Você pode começar a preparar algumas coisas
feitas em casa, com sua família, nos dias que antecedem o natal. Biscoitos,
bolos, rosquinhas, doces, artesanatos, são tantas as possibilidades que você
vai se surpreender. E o melhor, vocês terão momentos que serão recordados por
toda vida. Comecem uma tradição de mansinho, mas com firmeza!
Uma vez que o verdadeiro Natal não é apenas
um dia (25 de dezembro), mas se estende até dia 06 de janeiro, vocês terão duas
semanas para fazerem e viverem um Natal de paz, tranquilidade e reflexão. O
Deus mercado e seus santos (inclusive muitas igrejas) nos empurram a
data-limite de 25 de dezembro goela abaixo, para criar este sentimento de
pressa, urgência, ansiedade, onde as pessoas, tomadas pelo espírito do Saci,
deixam de pensar, abandonando o raciocínio crítico e se deixam levar por apelos
bobos, agindo como loucas.
Resista, subverta a ordem das coisas:
sobreviva ao caos, celebre o Natal!
E caso esteja sem ideia, comece pelo básico, como diria o amigo Cláudio: plante uma árvore.
E caso esteja sem ideia, comece pelo básico, como diria o amigo Cláudio: plante uma árvore.




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